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“Há que se ponderar que ninguém é Odiado nem Amado por todos, como se tenta sustentar a Opinião Pública.

A opinião pública, quase sempre, é vendida como se fosse uma entidade sólida, homogênea, unânime — uma espécie de tribunal invisível que já teria chegado ao seu veredito final sobre pessoas, ideias e acontecimentos. 

Mas basta um olhar menos apressado para perceber que essa suposta unanimidade costuma ser muito mais barulhenta do que verdadeira. 

O que se chama de “todos” raramente é todos; na maior parte das vezes, é apenas o recorte mais estridente de uma parcela que conseguiu transformar sua voz em aparência de consenso.

Nenhum ser humano é simples o bastante para ser amado por todos, nem desprezível o bastante para ser odiado por todos. 

A própria complexidade das relações humanas desautoriza esse tipo absurdo de sentença absoluta. 

Quem hoje é exaltado por muitos, inevitavelmente será incompreendido, criticado ou rejeitado por outros. 

E quem hoje é alvo de repulsa coletiva, ainda assim encontrará, em algum canto, quem enxergue nuances, contradições, contextos ou mesmo humanidade onde a multidão só quis despejar rótulos.

O problema é que a opinião pública contemporânea não se contenta com a discordância; ela tem fome de totalidade. 

Ela não quer dizer que alguém é controverso, quer decretar que alguém é unanimemente admirável ou integralmente detestável. 

Porque os extremos são mais fáceis de consumir. 

Eles dispensam reflexão, economizam complexidade e oferecem ao público a ilusão confortável de pertencer ao lado certo da história sem o incômodo de pensar demais.

Só que a realidade não se curva tão facilmente à teatralidade dos julgamentos coletivos. 

As pessoas carregam Grandezas e Misérias ao mesmo tempo. 

Podem ser sinceramente admiradas por algumas virtudes e legitimamente criticadas por falhas graves. 

Podem despertar amor em certos corações e repulsa em outros, sem que isso constitua contradição alguma. 

Contraditório, na verdade, é imaginar que a experiência humana possa ser reduzida a uma votação emocional universal.

Talvez uma das maiores fraudes do nosso tempo seja justamente essa fabricação de unanimidades artificiais. 

Não para revelar o que as pessoas de fato pensam, mas para constranger quem pensa diferente. 

Quando se repete que “todos amam” ou “todos odeiam”, o que se tenta impor não é uma constatação, mas uma pressão. 

É a tentativa de transformar percepção em obediência, sentimento em manada, juízo em reflexo condicionado.

Pensar com honestidade exige romper esse feitiço medonho.

Exige entender que a aclamação coletiva pode ser só euforia passageira, assim como a rejeição coletiva pode ser apenas a febre moral de um tempo doente por certezas fáceis. 

Exige, sobretudo, maturidade para reconhecer que a humanidade não cabe nessas molduras brutais de amor ou ódio absoluto.

No fundo, talvez o que mais distorce a opinião pública não seja a existência de divergências, mas o esforço constante para apagá-las em nome de narrativas convenientes. 

E é justamente aí que mora o perigo: quando a pluralidade real dos afetos humanos é sacrificada para sustentar a ficção de que todos sentem o mesmo. 

Porque sempre que tentam nos convencer de que alguém é amado ou odiado por todos, talvez estejam menos descrevendo o mundo e mais tentando domesticá-lo.”

Última atualização 20 de Março de 2026. História

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“Opinião pública é o que as pessoas acreditam que as outras pessoas pensam.”

Alfred Austin (1835–1913) poeta e escritor britânico

Public opinion is no more than this: What people think that other people think.
Prince Lucifer [a play].: [a Play].‎ - Página 189, de Alfred Austin - 1891 - 80 páginas

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“A opinião pública é sempre respeitável, não pelo seu racionalismo, mas pela sua omnipotência muscular.”

Marquês de Maricá (1773–1848)

Variante: A opinião pública é sempre respeitável, não pelo seu racionalismo, mas pela sua onipotência muscular.

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“A unanimidade é a opinião daquele que manda.”

Luis Felipe Angell (1926–2004)

citado em "Do bestial ao genial: frases da política‎" - página 155, Paulo Buchsbaum - Ediouro Publicações, 2006, ISBN 850002075X, 9788500020759 - 294 páginas

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“Não se decide sobre a aplicação dos direitos fundamentais consultando a opinião pública.”

Gilmar Mendes (1955) Jurista e magistrado brasileiro, Ministro do Supremo Tribunal Federal

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