„Era uma vez um pássaro. Adornado com um par de asas perfeitas e plumas reluzentes, coloridas e maravilhosas. Enfim, um animal feito para voar livre e solto no céu, e alegrar quem o observasse.
Um dia, uma mulher viu o pássaro e apaixonou-se por ele. Ficou a olhar o seu voo com a boca aberta de espanto, o coração batendo mais rapidamente, os olhos brilhando de emoção. Convidou-o para voar com ela, e os dois viajaram pelo céu em completa harmonia. Ela admirava, venerava, celebrava o pássaro.

Mas então pensou: talvez ele queira conhecer algumas montanhas distantes! E a mulher sentiu medo. Medo de nunca mais sentir aquilo com outro pássaro. E sentiu inveja, inveja da capacidade de voar do pássaro.

E sentiu-se sozinha.
E pensou: “vou montar uma armadilha. Da próxima vez que o pássaro surgir, ele não partirá mais.”

O pássaro, que também estava apaixonado, voltou no dia seguinte, caiu na armadilha, e foi preso na gaiola.

Todos os dias ela olhava o pássaro. Ali estava o objecto da sua paixão, e ela mostrava-o ás suas amigas, que comentavam: “Mas tu és uma pessoa que tem tudo.” Entretanto, uma estranha transformação começou a processar-se: como tinha o pássaro, e já não precisava de o conquistar, foi perdendo o interesse. O pássaro sem puder voar e exprimir o sentido da sua vida, foi definhando, perdendo o brilho, ficou feio – e a mulher já não lhe prestava atenção, apenas prestava atenção á maneira como o alimentava e como cuidava da sua gaiola.

Um belo dia o pássaro morreu. Ela ficou profundamente triste, e passava a vida a pensar nele. Mas não se lembrava da gaiola, recordava apenas o dia em que o vira pela primeira vez, voando contente entre as nuvens.
Se ela se observasse a si mesma, descobriria que aquilo que a emocionava tanto no pássaro era a sua liberdade, a energia das asas em movimento, não o seu corpo físico.
Sem o pássaro a sua vida também perdeu o sentido, e a morte veio bater á sua porta. “Por que vieste?” perguntou á morte. “Para que possas voar de novo com ele nos céus”, respondeu a morte. “Se o tivesses deixado partir e voltar sempre, amá-lo-ias e admirá-lo-ias ainda mais; porém, agora precisas de mim para puderes encontrá-lo de novo.“

Eleven Minutes

Última atualização 22 de Maio de 2020. História

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„Um dia eu vou sair desse conforto, encontrar o meu caminho. Passar pelo teste, saber que ao olhar pro céu, posso voar.“

—  Vicci Martinez 1984

Letra da música "What You Believe", presente no disco "I Love You In The Morning" Lançado em 2010

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„Agarre-se a seus sonhos, pois, se eles morrerem, a vida será como um pássaro de asa quebrada, incapaz de voar.“

—  Langston Hughes 1902 - 1967

Hold fast to your dreams, for if dreams die, life is a broken winged bird that cannot fly
The Collected Works of Langston Hughes‎ - Página 409, de Langston Hughes, Arnold Rampersad, Dolan Hubbard, Leslie Catherine Sanders, Steven Carl Tracy - Publicado por University of Missouri Press, 2001, ISBN 0826213944, 9780826213945 - 632 páginas

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„Carrega de ouro as asas do pássaro e ele nunca mais voará pelo céu.“

—  Rabindranath Tagore Poeta bengali e filósofo 1861 - 1941

Set bird's wings with gold and it will never again soar in the sky.
Stray birds - Página 34, Rabindranath Tagore - Forgotten Books, 1961, ISBN 1605066702, 9781605066707 - 84 páginas

„Pássaro e lesma, o homem oscila entre o desejo de voar e o desejo de arrastar“

—  Gustavo Corção 1896 - 1978

citado em "Novíssima gramática da língua portuguẽsa", página 34, Por Domingos Paschoal Cegalla, Publicado por Ed. Nacional, 1968, 393 páginas

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