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“Entre os “cristãos” que aceitam a interrupção da vida intrauterina e os que aceitam a interrupção da que “não deu certo” — socialmente —, paira um abismo de Misericórdia.

Talvez porque a Misericórdia verdadeira não se acomode nas trincheiras ideológicas.

Ela não escolhe vítimas conforme a conveniência moral do momento, nem distribui compaixão segundo critérios de afinidade política, econômica ou cultural.

A Misericórdia vê primeiro a pessoa, depois a circunstância; primeiro a dignidade, depois o julgamento.

Há quem se escandalize diante da interrupção de uma vida ainda escondida no ventre, mas permaneça indiferente quando uma existência já nascida é descartada pela pobreza, pela dependência química, pela doença mental, pela solidão ou pelo fracasso.

Há também quem se mobilize em defesa dos vulneráveis que caminham pelas ruas, mas relativize a vulnerabilidade absoluta daquele que sequer pode erguer a própria voz.

Em ambos os casos, o risco de transformar a defesa da vida em uma causa seletiva é iminente.

E toda seletividade aplicada à dignidade humana revela mais sobre nossas preferências do que sobre nossos princípios.

O Evangelho apresenta um caminho muito mais exigente.

Não basta defender a vida em um estágio e ignorá-la em outro.

Nem proteger o inocente antes do nascimento e abandonar o ferido depois dele.

Tampouco basta acolher o socialmente excluído e negar humanidade ao que ainda não nasceu.

A coerência da caridade cristã pede um olhar integral: a vida humana não adquire valor por ser desejada, produtiva, saudável ou socialmente bem-sucedida.

Seu valor é anterior a qualquer mérito.

A Misericórdia não elimina a verdade, mas também não permite que a verdade seja usada como instrumento de condenação.

Ela convida à defesa da vida sem arrogância, ao acolhimento sem relativismo e à justiça sem crueldade.

Talvez o maior desafio não seja identificar quem está do outro lado do abismo, mas reconhecer que todos estamos à sua beira.

Porque, quando a compaixão se torna seletiva, quando a dignidade humana passa a depender de circunstâncias ou preferências, cada um de nós contribui para alargar a distância entre aquilo que professamos e aquilo que vivemos.

E é justamente sobre esse abismo que a Misericórdia insiste em construir pontes.

Não para abandonarmos nossas convicções, mas para que elas sejam iluminadas pelo amor; não para deixarmos de defender a vida, mas para aprendermos a defendê-la integralmente, do início mais silencioso até o último suspiro natural.”

Última atualização 5 de Junho de 2026. História

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“Entre os “cristãos” que eliminam alguém no ventre e os que eliminam alguém que “não deu certo”, paira um abismo de controvérsias.”

O que difere o “falso cristão” favorável à morte no ventre do 'falso cristão' favorável à morte fora do ventre?

Valter Bitencourt Júnior photo

“Sentir o que o outro sente vai muito além da empatia, é ter misericórdia e compaixão ao próximo.”

Valter Bitencourt Júnior (1994) poeta e escritor brasileiro

Postado inicalmente em suas redes sociais, no mesmo dia que marca o falecimento do Papa Francisco (21 de abril de 2025), a quem prestou muitas homenagens:

Facebook https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=pfbid0Dvd1mLeCPNuQZV8dKJxzXA1NHbe3eezqjrK24N6dLyooyM1YMaVgTQdxmZoivBLXl&id=100063524802401&mibextid=Nif5oz

Twitter https://twitter.com/valterbjunior57/status/1914482298411536423?t=hzHv5xePyoxC3-NJMfgunA&s=19
Fonte: Site pensador: https://www.pensador.com/frase/MzY1MjgxOA/

Harvey Spencer Lewis photo
Isaac Bashevis Singer photo

“Quando um humano mata um animal para comer, está a negligenciar a sua própria fome por justiça. O homem reza por misericórdia, mas está relutante em estende-la aos outros. Porque que o homem há de esperar misericórdia de Deus? É injusto esperar uma coisa que não estás disposto a dar.”

Isaac Bashevis Singer (1902–1991)

When a human kills an animal for food, he is neglecting his own hunger for justice. Man prays for mercy, but is unwilling to extend it to others. Why should man then expect mercy from God? It's unfair to expect something that you are not willing to give.
citado em "Food for the spirit: vegetarianism and the world religions" - página i", Bala Books philosophy and literature series, Steven Rosen, Bala Books, 1987, ISBN 0896470229, 9780896470224, 120 páginas
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