„Mas don Rigoberto sabia que não havia outro remédio, tinha que se resignar e esperar. Provavelmente as únicas brigas do casal ao longo de todos os anos que estavam juntos foram causadas pelos atrasos de Lucrecia sempre que iam sair, para onde fosse, um cinema, um jantar, uma exposição, fazer compras, uma operação bancária, uma viagem. No começo, quando começaram a morar juntos, recém-casados, ele pensava que sua mulher demorava por mera inapetência e desprezo pela pontualidade. Tiveram discussões, desavenças, brigas por causa disso. Pouco a pouco, do Rigoberto, observando-a, refletindo, entendeu que esses atrasos da esposa na hora de sair para qualquer compromisso não eram uma coisa superficial, um desleixo de mulher orgulhosa. Obedeciam a algo mais profundo, um estado ontológico da alma, porque, sem que ela tivesse consciência do que lhe ocorria, toda vez que precisava sair de algum lugar, da sua própria casa, a de uma amiga que estava visitando, o restaurante onde acabara de jantar, era dominada por uma inquietação recôndita, uma insegurança, um medo obscuro, primitivo, de ter que ir embora, sair dali, mudar de lugar, e então inventava todo tipo de pretextos - pegar um lenço, trocar a bolsa, procurar as chaves, verificar se as janelas estavam bem fechadas, a televisão desligada, se o fogão não estava acesso ou o telefone fora do gancho -, qualquer coisa que atrasasse por alguns minutos ou segundos a pavorosa ação de partir.
Ela sempre foi assim? Quando era pequena também? Não se atreveu a perguntar. Mas já havia constatado que, com o passar dos anos, esse prurido, mania ou fatalidade se acentuava, a tal ponto que Rigoberto às vezes pensava, com um calafrio, que talvez chegasse o dia que Lucrecia, com a mesma benignidade do personagem de Melville, ia contrair a letargia ou indolência metafísica de Bartleby e decidir não mais sair da sua casa, quem sabe do seu quarto e até da sua cama. "Medo de abandonar o ser, de perder o ser, de ficar sem seu ser", pensou mais uma vez. Era o diagnóstico que havia chegado em relação aos atrasos da esposa.“

El héroe discreto

Última atualização 22 de Maio de 2020. História

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„O meu único medo de ir para o Brasil é nunca mais querer sair de lá.“

—  Johnny Depp ator, músico, produtor de cinema e diretor americano 1963

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„Se eu tivesse de sair da igreja sempre que ouvisse um falso sentimento, não daria para ficar cinco minutos.“

—  Ralph Waldo Emerson 1803 - 1882

If I should go out of church whenever I hear a false sentiment I could never stay there five minutes.
"New England Reformers - Lecture at Amory Hall" in: Essays‎ - Página 254 http://books.google.com.br/books?id=6VohAAAAMAAJ&pg=PA254, de Ralph Waldo Emerson - 1860 - 274 páginas

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„Eu sou como toda garota de 19 anos. Se você está apaixonada, você está vivendo o amor ao máximo. Você só quer ir ao cinema, sair, ter a relação mais normal possível … Estou feliz que encontrei alguém com esse mesmo ideal“

—  Selena Gomez Atriz, cantora e compositora americana 1992

Sobre o namoro com Justin Bieber.
Verificadas
Fonte: Terra. Data: 6 de fevereiro de 2012.
Fonte: Selena Gomez diz que namoro com Justin Bieber é "normal", Da Redação, Terra, 6 de fevereiro de 2012 http://diversao.terra.com.br/gente/noticias/0,,OI5598383-EI13419,00-Selena+Gomez+diz+que+namoro+com+Justin+Bieber+e+normal.html,

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„Os gols são como o ketchup: podem demorar a sair, mas vêm todos de uma vez.“

—  Cristiano Ronaldo futebolista português 1985

Sobre seu jejum de gols pela seleção Portuguesa.
Fonte: Globo Esporte. Publicado em 13 de junho de 2010.

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„Quando sair da cadeia, diga que foi torturado. Sempre.“

—  Mário Lago 1911 - 2002

Instruindo militantes de esquerda, que foram presos durante o regime militar, a mentir relativamente a tortura.
Fonte: Citado em artigo de Jarbas Passarinho no Correio Braziliense — 2006

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„Sempre para adiante sem jamais sair de si mesmo.“

—  Clarice Lispector Escritora ucraniano-brasileira 1920 - 1977

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