Esta frase aguardando revisão.

“Se tem algo em que os políticos-influencers são especialistas, é na produção de conteúdos para manter o aluguel dos apaixonados.

Eles aprenderam, cedo demais, que, na política das redes sociais, nem sempre é preciso entregar resultados para arregimentar apaixonados quando se pode entregar narrativas.

Um vídeo ou um corte indignado, uma frase de efeito, uma promessa cuidadosamente editada ou um inimigo convenientemente escolhido podem ser suficientes para manter acesa a chama de quem já decidiu acreditar.

E assim, a paixão política passou a funcionar como um contrato de aluguel: paga-se com atenção, compartilhamento, defesa incondicional e, às vezes, até com a própria capacidade de questionar.

Em troca, recebe-se diariamente uma nova dose de conteúdo para confirmar aquilo que o coração já escolheu antes que a razão pudesse perguntar.

O problema não está em admirar, apoiar ou defender ideias.

Toda sociedade precisa de convicções.

O perigo começa quando a convicção deixa de ser ponto de partida para a reflexão e passa a ser autorização para não refletir mais.

E o político-influencer sabe disso.

Ele não precisa necessariamente convencer o apaixonado de alguma coisa nova.

Basta retroalimentá-lo com aquilo que ele já deseja ouvir.

A cada publicação, um motivo para indignar-se com o adversário; a cada discurso, uma razão para justificar o próprio lado; a cada controvérsia, uma oportunidade de transformar política em torcida.

E torcida não exige coerência.

Exige apenas pertencimento.

Talvez por isso seja tão fácil transformar cidadãos em plateia e representantes em celebridades.

A política deixa de ser uma conversa sobre o destino coletivo e se transforma em uma disputa permanente por atenção.

Quem grita mais alto parece mais presente.

Quem viraliza parece mais relevante.

Quem provoca mais reações parece ter mais razão.

Mas existe uma pergunta bastante incômoda que todo apaixonado deveria fazer de vez em quando: e se aquilo que defendo estiver errado?

Essa pergunta não é traição.

É maturidade.

É humildade intelectual.

Pensar criticamente não significa abandonar princípios, mas submetê-los à prova.

Significa reconhecer que nenhum político deveria ocupar, dentro da nossa cabeça, um espaço que pertence à nossa própria consciência.

Porque, quando entregamos a nossa capacidade de pensar por conta própria em troca da confortável sensação de pertencer a um lado, deixamos de ser cidadãos e passamos a ser consumidores de narrativa.

E talvez seja justamente esse o grande negócio dos políticos-influencers: não vender ideias, mas vender pertencimento.

Enquanto houver apaixonados dispostos a receber o aluguel, sempre haverá quem produza conteúdo para manter o imóvel ocupado.”

Última atualização 4 de Outubro de 2026. História

Citações relacionadas

Esta frase aguardando revisão.

“⁠Para fazer frente à enxurrada de eleitores apaixonados, basta uma enxurrada de políticos-influencers igualmente apaixonados.


Talvez isso soe como ironia, mas talvez seja também um retrato fiel do nosso tempo.


Em uma era em que a atenção se tornou moeda de troca e a emoção passou a disputar espaço com os fatos, a política parece cada vez menos um campo de deliberação e cada vez mais um mercado de engajamento.


O eleitor apaixonado não procura apenas propostas.


Procura pertencimento, identidade e reconhecimento.


Quer sentir que faz parte de uma causa maior do que si mesmo.


Nesse ambiente, argumentos cuidadosamente construídos muitas vezes perdem terreno para frases de efeito, vídeos curtos e narrativas capazes de provocar indignação, esperança ou medo em poucos segundos.


Não surpreende, então, que os políticos se adaptem à lógica vigente.


Se a arena pública recompensa visibilidade, surgem os políticos-influencers.


Se a paixão mobiliza mais do que a ponderação, multiplica-se a encenação da paixão.


O resultado é uma dinâmica medonha em que representantes e representados passam a se retroalimentar emocionalmente, cada grupo incentivando no outro exatamente aquilo que mais dificulta o diálogo.


Mas há um risco evidente nessa simetria.


Quando a política se transforma em um espelho de afetos intensificados, a mediação perde valor.


A dúvida vira fraqueza.


A complexidade vira obstáculo.


A prudência passa a parecer falta de convicção.


E a própria atividade política, que deveria lidar com interesses conflitantes e problemas multifacetados, é pressionada a se comportar como entretenimento permanente.


E daí nasce a política do espetáculo.


Talvez a questão não seja apenas a existência de eleitores apaixonados ou de políticos-influencers.


Paixões sempre estiveram presentes na vida pública.


O problema surge quando a paixão deixa de ser combustível para a participação e passa a ser critério único para julgar a realidade.


Nesse ponto, a intensidade do sentimento substitui a qualidade do argumento.


A democracia depende de entusiasmo, mas também de freios.


Depende de convicções, mas igualmente de disposição para revisar certezas.


Se a resposta para uma enxurrada de eleitores apaixonados for apenas uma enxurrada de políticos-influencers igualmente apaixonados, talvez estejamos apenas aumentando o volume da correnteza, sem perguntar para onde ela está nos levando.


E correntes muito fortes têm uma característica bastante curiosa: arrastam não apenas aqueles que desejam avançar, mas também aqueles que já deixaram de distinguir movimento de direção.”

Alessandro Teodoro

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“Se acreditarmos apaixonadamente em algo que ainda não existe, nós o criamos. O não-existente é aquilo que não desejamos suficientemente.”

Nikos Kazantzakis (1883–1957)

Como citado em Organizational Vision, Values and Mission (1993) by Cynthia D. Scott, Dennis T. Jaffe and Glenn R. Tobe, p. 80

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