„Daqui a quanto tempo é que farei a barba?
e os anos a passarem, lentíssimos, sem nenhum pêlo nele, respondam-me que idade temos, uma mão cheia de gaivotas sobre a minha cabeça e os pinheiros de volta, o meu pai a humedecer o pincel, a girá-lo na caixa do sabão, a passeá-lo no lugar do bigode, a tirar uma das navalhas do
- Que idade tens?
estojo e sangue no lábio, a mãe dele procurou o algodão na lata, pingou-lhe em cima a tintura das feridas
- Só fazes asneiras não chores
o pai à mesa do jantar, que idade
- Cortaste-te?
temos, com medo que a mãe contasse, sem se atrever a olhá-la, e a colher a ascender da terrina da sopa, salvando-o
- Uma coisa insignificante já passou
vontade de saltar-lhe para o colo, beijá-la, chamar-lhe nomes ternos, não há nada melhor no mundo que o alívio, a vida cheia de cores, uma passadeira que se desenrolava à sua frente e havia de percorrer pairando, já passou que felicidade, uma coisa insignificante, não existem palavras mais bonitas, a mãe do meu pai piscou o olho ao meu pai enquanto o pai do meu pai desdobrava o guardanapo num vagar episcopal
- De que está a sorrir pai?
e uma voz de garoto, vinda das brumas anteriores a mim
- Coisas velhas menina“

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