„VICENTE fumava, à janela. Onze horas, meia-noite, sabia lá?
Quem pensa e fuma, depressa esquece o mundo, as horas e até o céu todo cheio de
estrelas que brilham à toa, sem se preocuparem com o tempo que corre e com a manhã
próxima que lhes virá apagar o lume e as arrancar da cisma...
Uma multidão de coisas tumultuosas, desconhecidas, o alvoroçava — confusas
recordações, uma espécie de doce saudade.
Uma vontade obscura e incerta de ascender, de voar! Um desejo de se introduzir a
grandes passos na imensa treva da noite, e a atravessar, e a romper, esquecido das lutas e
trabalhos, e penetrar num vasto campo luminoso onde tudo fosse beleza, e harmonia, e
sossego.
Desejo de se integrar numa natureza diferente daquela que o cercava, de crescer, de
subir, de bracejar num emaranhado de ramos, de se sentir envolto em grandes flores
macias, de derramar seiva, a seiva viva e forte que o incandescia e tonteava.“

—  Rachel de Queiroz, O Quinze
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