“CREPÚSCULODistância de horizontes!Como também estou longe, na hora indefinida,de uns outros horizontes!- Distância de meus olhos desta vida…Noção do existir, do começo e do fim,tudo desterra em mim a hora triste e vagae esta luz diluída sobre a terra.Já não sou mais que a pedra que se elevaou o mísero musgo que a envolve,vivendo dela à custa de humildade.E no entanto sinto, como nunca,pairar nesta penumbra indefinidauma revelação de eternidade.”Francisco Bugalho
“DorPassa-se um dia e outro diaÀ espera que passe a Dor,E a Dor não passa, e porfia,Porque trás dia, outro diaQue traz Dor inda maior;Porque embora a Dor aflitaCalasse há muito seus ais,Ainda, fundo, palpitaUma outra Dor que não grita:A Dor do que não dói mais.”Francisco Bugalho in Dispersos e Inéditos
“GlóriaVive dentro de mim um mundo raroTão vário, tão vibrante, tão profundoQue o meu amor indómito e avaroO oculto raivoso ao outro mundoE nele vivo audaz, ardentemente,Sentindo consumir-se a sua chamaQue oscila e desce e sobe inquietamente;Ouvindo a minha voz que por mim chamaEm situações grotescas que me ferem,Ou conquistando o que meus olhos querem:Príncipe ou Rei sonhando com domínios.Sinto bem que são vãs pra me prenderemAs mãos da Vida, muito embora imperemSobre a noção real dos meus declínios.”Francisco Bugalho in Dispersos e Inéditos