“CREPÚSCULODistância de horizontes!Como também estou longe, na hora indefinida,de uns outros horizontes!- Distância de meus olhos desta vida…Noção do existir, do começo e do fim,tudo desterra em mim a hora triste e vagae esta luz diluída sobre a terra.Já não sou mais que a pedra que se elevaou o mísero musgo que a envolve,vivendo dela à custa de humildade.E no entanto sinto, como nunca,pairar nesta penumbra indefinidauma revelação de eternidade.”Francisco Bugalho
“CaríciasCarícias sábias minhas mãos buscaramPor teu corpo em botão, alvorescente;E meus lábios sonâmbulos pisaramBranduras de veludo alvo e dormente.Triunfos nos meus olhos despontaram,E gritos de clarim e de trombetaEm meus ouvidos sôfregos soaram,Como cantos de amor dalgum poeta.Ritmos de doçuras e quebrantos,Corpos vergados, como dois acantos,.Gritaram alto que era doce a vida.Apertei-te na ânsia de perder-te.E quando regressei, voltei a ver-te:Vi-te ainda mais longe e mais perdida.”Francisco Bugalho Em C. Vide, 4 Jano 929
“GlóriaVive dentro de mim um mundo raroTão vário, tão vibrante, tão profundoQue o meu amor indómito e avaroO oculto raivoso ao outro mundoE nele vivo audaz, ardentemente,Sentindo consumir-se a sua chamaQue oscila e desce e sobe inquietamente;Ouvindo a minha voz que por mim chamaEm situações grotescas que me ferem,Ou conquistando o que meus olhos querem:Príncipe ou Rei sonhando com domínios.Sinto bem que são vãs pra me prenderemAs mãos da Vida, muito embora imperemSobre a noção real dos meus declínios.”Francisco Bugalho in Dispersos e Inéditos