“Para viver na confusão do mundo com um mínimo de sofrimento, o segredo é conseguir fazer com que o maior número de pessoas possível embarque nas suas ilusões; para viver sozinho aqui na montanha, longe de todos os envolvimentos, todas as atrações e expectativas que nos perturbam a paz, longe, sobretudo, de nossa própria intensidade, o segredo é organizar o silêncio, pensar na plenitude da montanha como capital, encarar o silêncio como uma riqueza que está se multiplicando constantemente. O silêncio que nos cerca é a vantagem que escolhemos, e é só com ele que temos intimidade. O segredo é encontrar sustento nas (Hawthorne mais uma vez) "comunicações de uma mente solidária consigo mesma". O segredo é encontrar sustento em *pessoas* como Hawthorne, na sabedoria dos mortos geniais.”Philip Roth livro A Mancha HumanaThe Human Stain
“Meu pai era dono de botequim, porém insistia que era preciso escolher as palavras com precisão, e nisso sou como ele. As palavras têm significados — meu pai só estudou até a sétima série, mas até ele sabia disso. Atrás do balcão ele guardava duas coisas pra resolver discussões entre seus clientes: um porrete e um dicionário.”Philip Roth livro A Mancha HumanaThe Human Stain
“Les conhecia todas as histórias sobre as coisas que podiam acontecer na primeira vez, e agora ele está lá e não sente nada. Nada acontece. Todo mundo está lhe dizendo que vai ser bom, você vai conseguir segurar a barra, cada vez que você voltar vai ser um pouco melhor, até que um dia a gente leva você a Washington e você passa um lápis sobre um papel em cima do nome de Kenny, e isso vai ser realmente a cura espiritual — depois de tanta preparação, nada acontece. Nada. Swift ouviu o Muro chorar. Les não ouve nada. Não sente nada, não ouve nada, nem mesmo relembra nada. É como o dia em que ele viu os dois filhos mortos. Tanta expectativa, e nada. Ele, que tinha tanto medo de se emocionar demais, agora não sente nada, e isso é pior. Prova que apesar de tudo, apesar de Louie e das idas ao restaurante chinês, dos médicos, de ele ter largado a bebida, Les tinha razão desde o começo: ele já morreu. No restaurante chegou a sentir alguma coisa, e isso o enganou por um tempo. Mas agora ele não tem mais dúvida de que está morto, porque não consegue nem mesmo evocar a lembrança de Kenny. Antes essa lembrança o torturava, agora ele não consegue se ligar a ela de jeito nenhum.”Philip Roth livro A Mancha HumanaThe Human Stain
“Coleman passara quase toda a sua carreira acadêmica na Athena; homem extrovertido, arguto, urbano, terrivelmente sedutor, com um toque de guerreiro e charlatão, em nada se parecia com a figura pedante do professor de latim e grego (assim, por exemplo, quando ainda era um jovem instrutor, cometeu a heresia de criar um clube de conversação em grego e latim). Seu venerável curso introdutório de literatura grega clássica em tradução — conhecido pela sigla DHM, ou seja, deuses, heróis e mitos — era popular entre os alunos precisamente por tudo o que havia nele de direito, franco, enfático e pouco acadêmico. "Vocês sabem como começa a literatura europeia?", perguntava ele, após fazer a chamada na primeira aula. "Com uma briga. Toda a literatura europeia nasce de uma briga." Então pegava sua Ilíada e lia para os alunos os primeiros versos. "'Musa divina, canta a cólera desastrosa de Aquiles… Começa com o motivo do conflito entre os dois, Agamenon, rei dos homens, e o grande Aquiles', E por que é que eles estão brigando, esses dois grandes espíritos violentos e poderosos? Por um motivo tão simples quanto qualquer briga de botequim. Estão brigando por causa de uma mulher. Uma menina, na verdade. Uma menina roubada do pai. Capturada numa guerra. Ora, Agamenon gosta muito mais dessa menina do que de sua esposa, Clitemnestra. 'Clitemnestra não é tão boa quanto ela', diz ele, 'nem de rosto, nem de corpo'. É uma explicação bastante direta do motivo pelo qual ele não quer abrir mão da tal moça, não é? Quando Aquiles exige que Agamenon a devolva ao pai a fim de apaziguar Apolo, o deus cuja ira assassina foi despertada pelas circunstâncias em que a moça fora raptada, Agamenon se recusa: diz que só abre mão da namorada se Aquiles lhe der a dele em troca. Com isso, Aquiles fica ainda mais enfurecido. Aquiles, o adrenalina: o sujeito mais inflamável e explosivo de todos os que já foram imaginados pelos escritores; especialmente quando seu prestígio e seu apetite estão em jogo, ele é a máquina de matar mais hipersensível da história da guerra. Aquiles, o célebre: apartado e alijado por causa de uma ofensa à sua honra. Aquiles, o grande herói, tão enraivecido por um insulto — o insulto de não poder ficar com a garota — acaba se isolando e se excluindo, numa atitude desafiadora, da sociedade que precisa muitíssimo dele, pois ele é justamente seu glorioso protetor. Assim, uma briga, uma briga brutal por causa de uma menina, de seu corpo jovem e das delícias da rapacidade sexual: é assim, nessa ofensa ao direito fálico, à *dignidade* fálica, de um poderosíssimo príncipe guerreiro, que tem início, bem ou mal, a grande literatura de ficção europeia, e é por isso que, quase três mil anos depois, vamos começar nosso estudo aqui…”Philip Roth livro A Mancha HumanaThe Human Stain
“É só na cama que a Faunia é esperta de verdade, Nathan. Uma esperteza física espontânea assume o papel principal na cama — e o coadjuvante é uma coragem transgressora. Na cama, nada escapa da atenção da Faunia. A carne dela tem olhos. A carne dela vê tudo. Na cama ela é um ser poderoso, coerente, unificado, que tem prazer em ultrapassar as barreiras. Na cama ela é um verdadeiro fenômeno. Talvez isso também seja o lado bom de ter sido molestada. Quando a gente desce pra cozinha, quando eu preparo uns ovos mexidos e depois comemos juntos, ela é uma criança. Talvez isso também seja o lado bom de ter sido molestada. Eu vejo que estou acompanhado de uma criança apatetada, confusa, incoerente. Isso não acontece em nenhum outro lugar. Mas sempre que a gente come é a mesma coisa: eu e uma criança. É tudo o que resta da criança que ela foi. Não consegue sentar direito na cadeira, não consegue juntar duas frases que façam sentido. Toda aquela atitude aparentemente adulta em relação ao sexo e à tragédia, tudo isso desaparece, e sinto vontade de dizer: 'Senta direito, tira a manga do meu roupão de dentro do seu prato, tenta escutar o que eu estou dizendo e olha pra mim, porra, quando você fala.”Philip Roth livro A Mancha HumanaThe Human Stain
“Ao contrário da fatwa proclamada por Khomeini, que condenou à morte Salman Rushdie, a castração corretiva sonhada por Buckley não vinha acompanhada de nenhum incentivo financeiro para possíveis executores. No entanto, foi ditada por um espírito tão exigente quanto o do aiatolá, e em nome de ideais tão elevados quanto os dele.”Philip Roth livro A Mancha HumanaThe Human Stain
“Apático", dizia ele. "Totalmente apático. Nenhuma emoção. Meus filhos mortos e eu apático. Os olhos do meu filho revirados pra cima, e o pulso dele morto. O coração morto. Meu filho não respira. Meu filhinho. O Les. O único filho homem que eu tive na vida, e eu nunca mais vou ter outro, não. Mas não senti nada. Era como se ele fosse um desconhecido. A mesma coisa com a Rawley. Era uma desconhecida. Minha filhinha. A culpa toda é da porra do Vietnã! A guerra já acabou há tanto tempo e foi você que fez isso! Meus sentimentos estão completamente atrapalhados. É como se eu tivesse levado uma porrada na cabeça com um porrete desse tamanho quando não tem nada acontecendo. Aí de repente tem uma coisa acontecendo, uma puta duma coisa *enorme*, e eu não sinto porra nenhuma. Totalmente apático. Meus filhos morreram, mas o meu corpo está entorpecido e a minha cabeça está vazia. Vietnã. Foi por isso! Eu nunca chorei pelos meus filhos. Ele tinha cinco anos e ela oito. Eu perguntei pra mim mesmo: 'Por que é que eu não sinto nada? Por que foi que eu não salvei meus filhos? Por quê?'. Castigo. Castigo! Eu não conseguia parar de pensar no Vietnã. Todas as vezes que eu achei que morri. Foi aí que comecei a sacar que eu não vou morrer. Porque eu já morri, porra. Porque eu morri no Vietnã. Por que eu sou um cara que já *morreu*.”Philip Roth livro A Mancha HumanaThe Human Stain
“Expulso da Athena", dizia me ele, "por ser um judeu branco do tipo que aqueles filhos da puta ignorantes consideram o inimigo. Fomos nós os culpados pelo sofrimento dos negros nos Estados Unidos. Fomos nós que expulsamos os negros do paraíso. E é por nossa culpa que eles se dão mal até hoje. Qual é a principal fonte do sofrimento dos negros neste mundo? Eles já sabem a resposta antes mesmo de assistir às aulas. Eles já sabem sem ter nem que abrir um livro. Sem ter que ler — sem ter que *pensar*. Quem é responsável? Os mesmos monstros maus do Velho Testamento que causaram tantos sofrimentos aos alemães.”Philip Roth livro A Mancha HumanaThe Human Stain
“Na Nova Inglaterra, o verão de 1998 foi marcado por muito sol e calor; no beisebol, por uma batalha entre um deus branco e outro deus negro; e, nos Estados Unidos, por uma imensa febre de religiosidade, de puritanismo, quando o terrorismo — que se seguiu ao comunismo como a principal ameaça à segurança do país — foi sucedido pela felação, quando um presidente viril, de meia-idade mas de aparência jovem, e uma estagiária ousada e apaixonada, com vinte e um anos de idade, aprontaram no Salão Oval como se fossem dois adolescentes num estacionamento, resgatando a mais antiga paixão americana, historicamente talvez o seu prazer mais traiçoeiro e subversivo: o êxtase da santimônia.”Philip Roth livro A Mancha HumanaThe Human Stain
“Sempre que um branco lida com você", seu pai dizia à família, "por mais bem-intencionado que seja, ele sempre pressupõe que você é intelectualmente inferior. De um modo ou de outro, se não diretamente com palavras então com a expressão do rosto, o tom de voz, a impaciência, ou até mesmo o contrário — a tolerância, uma maravilhosa demonstração de *humanidade* —, ele vai sempre falar com você como se você fosse burro, e, se você não for, ele vai ficar espantado.”Philip Roth livro A Mancha HumanaThe Human Stain
“Há algo de fascinante no efeito do sofrimento moral sobre uma pessoa que não parece nem fraca nem frágil. É ainda mais insidioso do que o efeito de uma doença física, porque não há morfina, nem raquidiana, nem cirurgia radical que possa trazer alívio. Quem sofre seu impacto tem a sensação de que só ficará livre se morrer. O realismo cru desse sofrimento é uma coisa incomparável.”Philip Roth livro A Mancha HumanaThe Human Stain
“Pelo visto, Mark Silk achava que ia ter o pai para odiar por todo o sempre. Para odiar, odiar, odiar, odiar, e então, talvez, quando ele achasse que era a hora, depois que as cenas de acusação tivessem se intensificado num crescendo até ele quase matar Coleman com seu flagelo de ressentimento filial, perdoar. Ele pensava que Coleman estaria presente até que toda a peça terminasse de ser representada, como se ele e Coleman estivessem não no meio da vida, e, sim, na escarpa sul da acrópole de Atenas, num teatro ao ar livre dedicado a Dioniso, onde, diante dos olhos de dez mil espectadores, as unidades dramáticas eram rigorosamente observadas e o grande ciclo catártico era encenado todos os anos. O desejo humano de começo, meio e fim — e de um fim apropriado em magnitude ao início e ao meio — se realiza à perfeição nas tragédias que Coleman ensinava na Faculdade Athena. Mas fora da tragédia clássica do século V a. C., a expectativa de que tudo se complete, quanto mais de que chegue a uma consumação justa e perfeita, é uma ilusão ingênua indigna de um adulto.”Philip Roth livro A Mancha HumanaThe Human Stain
“Seria efeito do próprio ato em si, da sua intimidade absoluta quando você não apenas está dentro do corpo de outra pessoa mas também ela envolve o seu? Ou seria a nudez física? Você tira a roupa, vai para a cama com alguém, e é justamente nesse momento que tudo aquilo em que você se esconde, sua particularidade, seja ela qual for, seja lá como estiver codificada, é descoberta, e é esse o motivo da timidez, do medo que *todo mundo* sente. Naquele lugar louco e anárquico, quanto de mim está exposto, quanto de mim está a descoberto? *Agora eu sei quem você é.”Philip Roth livro A Mancha HumanaThe Human Stain
“Todo ano, no dia 22 de agosto — o dia em que, em 1927, o estado de Massachusetts executou os dois anarquistas, os quais, segundo seus pais ensinaram a ela e a seus irmãos, não haviam cometido assassinato algum —, a loja era fechada e a família se recolhia no sobrado (um apartamento apertado e escuro, cuja desordem enlouquecida era maior ainda que a da loja) para observar um dia de jejum. Era um ritual que o pai de Iris, como se fosse líder de uma seita, havia inventado sozinho, inspirando-se no Yom Kippur judaico. Seu pai não tinha ideias de verdade a respeito do que ele julgava serem ideias — nas profundezas de sua mente só havia uma ignorância absoluta e o desespero amargo dos miseráveis, um ódio revolucionário impotente.”Philip Roth livro A Mancha HumanaThe Human Stain
“Chegando são e salvo à margem, virei-me e olhei para trás, para ver se ele ia me seguir pelo meio do mato e acabar comigo antes que eu tivesse a oportunidade de entrar na casa em que Coleman Silk passara a infância e, tal como Steena Palsson tantos anos antes, almoçar com a família dele em East Orange, o convidado branco daquele domingo. Só de olhar para ele senti o terror do trado — mesmo vendo que ele voltara a se sentar no balde: o branco gelado da lagoa, circundando uma manchinha minúscula que era um homem, o único sinal humano em toda a natureza, como o X de um analfabeto numa folha de papel. Ali estava, se não a história completa, a imagem completa. É muito raro, neste nosso final de século, a vida nos oferecer uma visão pura e tranquila como esta: um homem solitário sentado num balde, pescando através de um buraco aberto numa camada de gelo com meio metro de espessura, numa lagoa cuja água está constantemente se renovando, no alto de uma montanha bucólica na América.”Philip Roth livro A Mancha HumanaThe Human Stain
“Então foi para Washington e, durante todo o primeiro mês, foi um crioulo e mais nada, um *negro* e mais nada. Não. Não. Ele via o destino que o esperava, e não o aceitava. Apreendia-o intuitivamente e recuava com uma repulsa espontânea. Não podia deixar que o grande *eles* lhe impusesse seu preconceito; também não podia deixar que o pequeno *eles* se transformasse num *nós* e lhe impusesse sua ética. Não à tirania do *nós*, sempre louco para tragá-lo, aquele *nós* moral coercitivo, abrangente, histórico, inevitável, com seu insidioso *E pluribus unum*. Nem o *eles* da Woolsworth's nem o *nós* da Howard. Em vez disso, o *eu* nu e cru, com toda a sua agilidade. A *auto*descoberta — isso é que era o soco no estrombo. A singularidade. A luta encarniçada pela singularidade. O animal singular. O relacionamento fluido com tudo. Não estático, mas fluido. Autoconhecimento, sim, porém *oculto*. O que haveria de mais poderoso que isso?”Philip Roth livro A Mancha HumanaThe Human Stain
“Nos dez quilômetros quadrados daquele pontinho no mapa, uma cidadezinha de Nova Jersey com menos de setenta mil habitantes, como por todo o país no tempo da juventude de Coleman, havia essas distinções rígidas entre classes e raças, santificadas pela igreja e legitimadas pelas escolas. No entanto, na modesta rua arborizada onde moravam os Silk, as pessoas comuns não precisavam ser tão responsáveis perante Deus e o Estado quanto aquelas cujo ofício era manter uma comunidade humana, inclusive suas piscinas, livre de qualquer impureza; e assim os vizinhos eram, de modo geral, simpáticos para com os Silk, respeitabilíssimos e quase brancos — negros, sem dúvida, mas, nas palavras da mãe tolerante de um dos colegas de jardim de infância de Coleman, "pessoas com uma tez muito agradável, cor de gemada" — a ponto mesmo de pedir-lhes emprestada uma ferramenta ou uma escada, ou de ajudá-los a descobrir por que o carro não queria pegar.”Philip Roth livro A Mancha HumanaThe Human Stain
“Foi o verão em que — pela bilionésima vez — o caos, a brutalidade, a bagunça se revelaram mais sutis do que a ideologia ou a moralidade. Foi o versão em que o pênis de um presidente esteve na cabeça de todos, e a vida, com toda a sua pureza desavergonhada, mais uma vez confundiu todo o país.”Philip Roth livro A Mancha HumanaThe Human Stain
“É muito difícil ler os clássicos; logo a culpa é dos clássicos. Hoje o estudante faz valer a sua incapacidade como um privilégio. Eu não consigo aprender isto, portanto alguma coisa está errada nisto. E há especialmente alguma coisa errada com o mau professor que quer ensinar tal matéria. Deixou de haver critérios - para só haver opiniões.”Philip Roth livro A Mancha HumanaThe Human Stain
“Sempre que um homem começa a falar com você sobre sexo, ele está lhe dizendo uma coisa a respeito de vocês dois. Noventa por cento das vezes isso não acontece, o que talvez seja até bom, se bem que, quando a gente não chega no nível da franqueza sobre a sexualidade e em vez disso age como se jamais pensasse no assunto, a amizade entre dois homens é incompleta. A maioria dos homens nunca encontra um amigo assim. Não é comum. Mas quando acontece, quando dois homens constatam que estão de acordo a respeito dessa parte essencial da condição masculina, sem medo de ser julgados, de ter vergonha, de despertar inveja ou de constatar sua inferioridade, quando podem estar certos de que sua confiança não será traída, a conexão humana entre eles se torna muito forte, e o resultado é uma intimidade inesperada.”Philip Roth livro A Mancha HumanaThe Human Stain