Gerson De Rodrigues: Homem
Gerson De Rodrigues é poeta, escritor e anarquista Brasileiro. Explore frases interessantes em homem.
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“O Dia em que eu morri
Hoje fui assombrado por todas as tristezas do mundo, a solidão que era a minha melhor amiga tentou me assassinar, e a melancolia que a muito tempo a aceitei como parte da minha essência, transformou-se em demência e levou-me a loucura.
Gritei por ajuda mas ninguém naquele quarto vazio poderia escutar minhas preces, as janelas transformaram-se em grades de prisões e aos poucos fui consumido pela escuridão que me aprisionou em um asilo de sofrimento e demência…
Demônios terríveis desciam pelas paredes e as vozes em minha mente lembravam-me que a solução para livrar-se da dor era a morte
Por muitos anos eu acreditei que havia superado os monstros e os diabos, e que o meu pacto com a solidão e a melancolia haviam feito de mim um homem livre. Mas a liberdade havia se tornado mais uma ilusão, e o Niilismo que há muito tempo havia me libertado das correntes frias da depressão e dos vícios também havia me traído.
Pois naquele momento de caos e desespero, eu não era um Niilista, tão pouco um professor ou um intelectual. Eu não era ninguém! Não existiam diferenças entre mim e os vermes, eu finalmente havia percebido que era hoje…
Hoje era o dia em que eu morreria, todos temos que morrer um dia certo? Em algum momento os monstros vão sair debaixo da cama e cobrar o pacto que você fez com o diabo, e ele vai sorrir para você e quando o diabo sorri os homens choram
Destranquei a gaveta, e peguei aquela velha pistola que jurei nunca mais ver. Coloquei-a contra a minha boca e atirei…
Há momentos em que a solidão irá te trair e a tristeza tentará te assassinar então clamaremos por socorro e ninguém poderá escutar nossas preces pois a única solução será matar as dores que assombram o seu coração para que nos tornemos estrelas mortas que continuam a brilhar no vazio da escuridão.”
Gerson De Rodrigues
“Alegoria do Suicídio
Eu sei que hoje será o meu último dia na terra, eu decidi isso enquanto caminhava solitário pelas penumbras da noite. Procurei por cada canto daquela vazia avenida, e não encontrei nenhum motivo para existir.
Todos os motivos que eu supostamente haveria de encontrar eram mentiras contadas por mim mesmo afim de prolongar o castigo de viver.
Voltei para casa, peguei aquela velha corda que ficava guardada na segunda gaveta, amarrei-a sobre o teto, e me dependurei sobre a miséria.
Ali estava eu, debatendo-me enquanto sentia o nó daquela velha corda quebrando cada centímetro do meu pescoço, enquanto a minha alma escapava do meu corpo.
Eu me debatia, e meus olhos lacrimejavam-se, talvez, fossem lágrimas de arrependimento. Mas agora já era tarde demais…
Eu morri e minha alma caiu de joelhos diante da figura de um homem, aquele era eu, uma versão mais madura de mim que já havia passado por todos esses momentos de dor e agonia.
Acreditei por alguns segundos, estar diante da morte, pois o meu corpo ainda estava ali dependurado sobre a sala de estar.
Caminhei lado a lado com aquele homem misterioso, que com os dedos apontou para as estrelas e com uma voz suave ele me disse:
- Se algum dia o desejo da morte gritar em seu rosto, não aperte o gatilho! Pense nas estrelas, elas morrem não porque elas querem, e sim porque chegou a hora.
Viver sozinho é como mergulhar no infinito e voar até o céus tocando as nuvens e as estrelas
Estar sozinho é como voltar no tempo e sentir-se novamente uma criança ou um deus a vagar pelo cosmos
Andar sozinho é como viajar até o paraíso acompanhado por anjos ou dançar no inferno acompanhado por diabos
Viver sozinho… é também sentir a navalha cortar seus pulsos enquanto seu sangue jorra em alto mar é sufocar-se nas próprias lágrimas até que o seu pulmão se encha de sangue e a luz dos seus olhos se apague
Sobreviver sozinho é renascer do castigo de existir é limpar o sangue com as próprias mãos é caminhar mesmo quando já não existe mais chão é matar quando não te oferecem perdão é amar a si mesmo por compaixão
É viver sendo o único deus na escuridão…”
Gerson De Rodrigues
“Vocês não escutam os barulhos das correntes!? Não as sentem presa em seus pés!?
Gritava o homem louco em uma praça movimentada, enquanto todos riam de sua barbárie.
Ah… Os homens loucos, não seriam estes os mais sábios dentre os seus? Mas do que adianta a sapiência ou a fúnebre estupidez, quando somos apenas macacos escravos de nossa própria lucidez.
Escravos de sua própria criação, do seu próprio mecanismo. Escravos de uma dor constante, de um medo constante e uma busca pela salvação que faz com que o homem curve-se diante de si mesmo.
Pequenos tolos, pensam estar no centro do palco para brilhar, quando em uma escala cósmica nem um outro ser em nossa insignificante existência iria acreditar.
Eu sempre me pego pensando sobre a vida, enquanto me perco em reflexões filosóficas diante da vastidão do cosmos. E me embriago em questões… - Será que em algum lugar no universo existe outra civilização? Como ela vive? Seria este o caminho que percorremos, o caminho natural a todos os seres? Curvar-se diante de suas próprias correntes!? Beijar as patas imundas de porcos políticos enquanto matamo-nos uns aos outros por ideologias banais!?
Seria o homem um erro do universo?
Aqui está o homem, sentado em sua cela com as chaves nas mãos gritando por liberdade e perdão por um deus que é o resultado de sua própria criação…”
Gerson De Rodrigues
“Cristo
O Filósofo Gabriel se apaixonou por uma linda moça chamada Maria. Maria morreu no parto, mas em suas últimas palavras disse-lhe que teriam uma filha que iria trazer aos homens a chave para o conhecimento.
Sua Filha, Jesus, nasceu em uma biblioteca, aonde foi visitada pelos mais renomados Filósofos da época. Sua filha foi educada no mais alto escalão literário e após seus 12 anos, a vemos como uma jovem Poetisa.
Aos dezoito anos, Jesus tornou-se uma renomada Filósofa e então começou a ensinar novos alunos por toda a cidade. Dentre seus ensinamentos, estavam como base a Anarquia e a rebelião a todos sistemas de crenças, e após muita leitura, descobriu que o único deus que ela dobraria os joelhos nesse mundo, seria a mulher que vês diante do espelho.
Jesus fez também muitas coisas boas. Comandou rebeliões contra o governo vigente que os oprimia. Lecionou os mais pobres e até mesmo Publicou livros.
Por fim, seus atos revolucionários foram vistos como uma ameaça a religião e ao estado. E não demorou muito para que as autoridades desejassem sua morte. Jesus Lecionou Filosofia por uns três anos e meio desde então, de modo que aos seus 34 anos de idade foi crucificada em praça publica
Suas últimas palavras são repetidas até hoje
– Amai a ti mesmo como nenhum próximo o fará! E nenhum deus dirá não! Pois não existe deus se não o próprio homem!
Gritava em agonia a jovem mulher pregada na cruz Enquanto os apedeutas gargalhavam como diabos sátiros.”
Gerson De Rodrigues
“Metáforas & Paranoias – As vozes em minha mente
Dentro da mente de cada indivíduo existe um lugar escuro e sombrio, cuja penumbra da noite reina sobre seus pensamentos como uma alma aprisionada no mais terrível dos abismos. Esse lugar é temido por todos os homens, lá vivem seus pensamentos mais infames e desprezíveis, é de lá que nascem os suicidas e os assassinos em série.
Muitos homens procuram esquecer e fingir que o lado sombrio não existe, então apegam-se nos deuses, nas drogas, no amor e nas mentiras.
Enquanto isso muitos outros homens são assombrados pelos fantasmas que lá habitam, vozes que gritam em sua mente coisas terríveis que o levam a loucura.
As vozes exploram o pior da essência de cada indivíduo, enquanto as almas do abismo mastigam as tripas dos deuses caídos e gritam com sangue em seus dentes coisas tão terríveis que nem mesmo o homem mais puro seria capaz de suportar.
Para conviver com tais pensamentos, é necessário um pacto com o seu lado sombrio. Um pacto com a mais podre essência abismal que vive dentro da sua mente. Para isso, temos que encarar os fantasmas e os monstros não como inimigos, não como criaturas infernais, e sim como uma bela estrela cintilante no céu noturno. Que embora bela e cintilante, seu brilho são as lágrimas de diabos atormentados que a muito tempo chorou suas últimas gotas de sangue…”
Gerson De Rodrigues
“O Filósofo & O Prisioneiro - Uma Alegoria para sabedoria da vida
Condenado a pena de morte o Filósofo sentava-se solitário em sua cela, enquanto observava o céu estrelado pela pequena janela que ali havia.
Faltando apenas algumas horas para sua execução, um outro prisioneiro é arremessado em sua cela
– Faltam-te apenas duas horas! E a morte irá beijá-lo! Gritou o guarda enquanto os enjaulava sem piedade
Após levantar-se e limpar suas roupas sujas. O prisioneiro encara aquele velho homem de barbas longas que encontrava-se ali parado, observando atentamente o céu noturno
– O Guarda disse que você só tem duas horas de vida… Como se sente?
Questionou o prisioneiro de forma tímida e preocupada, tentando puxar assunto. Enquanto isso o filósofo seguia em silencio observando o céu estrelado.
O Prisioneiro por sua vez, caminhava de um lado para o outro incansavelmente preocupado
– Para mim, imagino que faltam três ou quatro horas… Droga! Eu mal consegui realizar os meus sonhos… O que você pretende fazer nas suas duas últimas horas?
Persistia o prisioneiro em uma tentativa falha de diálogo, enquanto caminhava de um lado para o outro, preocupado e com o medo da morte começa a remover sua camiseta e amarra-la na parte mais alta da cela
– Quer saber? Pode ficar ai, fingindo que está tudo bem. Eu vou me matar, eu prefiro isso do que ser condenado a cadeira elétrica!
O Filósofo, ao escutar tais palavras sórdidas volta sua atenção a aquela pobre alma.
– Antes de prosseguir com esse ato, poderia por favor vir aqui ver algo?
Disse o filósofo em tonalidade calma e serena
O Prisioneiro indaga – Ver o que? Não há nada que possa nos salvar agora
– Eu insisto, tenho algo a mostrar-te…
O Prisioneiro então caminha até a janela
– Está vendo aquela estrela? A Mais brilhante dentre elas Disse o Filósofo apontando com os dedos para o céu estrelado
– Sim, estou sim, aquela com uma tonalidade meio azulada não é? – Ela mesmo…
O Filósofo encosta-se na parede, e com a voz calma ele diz
– Observe a atentamente, imagine que naquela estrela existe também um planeta
Um planeta tal como o nosso, com heróis e vilões, deuses e homens, sábios e tolos, o quão fascinante não seria? O Quão fascinante não seria estar observando-os agora neste momento oportuno, a algumas horas antes da nossa morte…
O Prisioneiro encantado com tais palavras, observava atentamente aquela estrela, e toda aquela euforia e preocupação que havia em sua mente aos poucos se esvai
O Filósofo então, coloca as mãos nos ombros daquela pobre alma e diz
– Essa estrela, já pode ter se apagado a muito tempo embora ainda estejamos contemplando a sua luz (…) Toda a vida que um dia viveu sobre o calor daquela estrela, hoje se encontra no mais sublime silencio da doce morte que os encontra
Tal como a nossa estrela, que é um ponto luminoso no céu noturno de alguém
Quando morrermos, a luz da nossa estrela servirá como um suspiro de esperança para homens que como nós aguardam o sublime beijo da dona morte.
O Prisioneiro com os olhos cheios de lágrimas e o coração calmo, sorri, e mesmo diante da inevitável morte encontrava-se tranquilo
– Então não temes a morte? Perguntou o Prisioneiro
O Filósofo caminha até a janela, e olhando para o céu noturno com a contemplação filosófica de que a sua morte de nada importava para o universo
Sorrindo ele responde
– A realização de que vou virar pó, paradoxalmente me tranquiliza…”
Gerson De Rodrigues