Citações

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“Não há mau comportamento de um que possa ser tomado por indulgência poética para relativizar o do outro.

Ainda assim, é exatamente isso que fazemos, quase por instinto. 

Criamos metáforas generosas para os erros de quem nos convém defender e reservamos o rigor nu e cru para os deslizes de quem já decidimos condenar. 

Transformamos falhas morais em “contextos”, agressões em “reações”, incoerências em “complexidades humanas”. 

E, assim, vamos esculpindo versões mais palatáveis daquilo que, em sua essência, permanece inalterado.

O problema não está apenas no erro em si, mas na régua elástica que utilizamos para medi-lo. 

Quando a ética deixa de ser princípio e passa a ser instrumento, ela já não orienta — apenas justifica. 

E uma ética que serve para justificar tudo, no fundo, não sustenta nada.

Há um conforto quase sedutor em relativizar. 

Ele nos poupa do desconforto de admitir que, às vezes, estamos do lado errado — ou, pior ainda, que não existe um “lado certo” tão nítido quanto gostaríamos. 

Mas essa indulgência seletiva cobra um preço alto: ela corrói a coerência e, aos poucos, dissolve a credibilidade de qualquer discurso moral.

Se o erro de um é sempre suavizado pela indulgência poética, enquanto o do outro é amplificado pela indignação seletiva, o que resta não é justiça — é conveniência. 

E a conveniência, quando travestida de consciência, se torna uma das formas mais silenciosas de desonestidade.

Talvez o verdadeiro exercício de maturidade não esteja em apontar culpados, mas em sustentar critérios. 

Em reconhecer que o desconforto da coerência é, muitas vezes, mais honesto do que o alívio da parcialidade. 

Porque, no fim, não é o erro do outro que nos define — é a forma como escolhemos interpretá-lo.”

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“No Universo Polarizado, há sempre mais que meia verdade: a verdade da Esquerda, a da Direita — e a Verdade.

O problema é que, na pressa de pertencer, muitos já não buscam a Verdade — escolhem apenas o lado onde ela parece mais confortável. 

E assim, a verdade deixa de ser um ponto de encontro para se tornar uma arma de afirmação. 

Cada grupo a molda, a recorta, a edita, até que ela caiba perfeitamente em suas convicções — ainda que para isso precise amputar fatos, contextos e nuances.

A verdade da Esquerda, muitas vezes, carrega a urgência das causas sociais, o clamor por justiça e igualdade. 

Mas, quando absolutizada, pode cegar-se até para suas próprias contradições. 

A da Direita, por sua vez, frequentemente se ancora em valores de ordem, liberdade individual e tradição, mas também corre o risco de ignorar as complexidades humanas que não cabem em suas premissas.

E então há a Verdade — essa entidade incômoda, indomável, que não se curva a ideologias nem se adapta a narrativas convenientes. 

Ela exige desconforto. 

Exige dúvida. 

Exige a coragem de admitir que, às vezes, o outro lado pode ter razão em algo — e que nós também podemos estar errados.

Mas em tempos de certezas barulhentas, a dúvida virou fraqueza, e a escuta, quase uma traição. 

Assim, seguimos acumulando versões da verdade, enquanto nos afastamos cada vez mais dela.

Talvez o maior ato de coragem hoje não seja defender um lado, mas sustentar a inquietação de quem ainda está disposto a procurar a verdadeira verdade. 

Porque a Verdade — a de fato — não grita, não milita e nem se atreve a se impor. 

Ela se revela, lentamente, àqueles que ainda têm humildade intelectual suficiente para não possuí-la por completo.”

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“Dizer que a indenização é irrisória não seria relativizar o crime — descaradamente — continuado pelo Estado?

Pois há indenizações tão ínfimas que acabam se tornando outro crime.

Há algo de profundamente perturbador quando o reconhecimento de uma injustiça vem acompanhado de uma reparação que mal arranha a superfície do dano causado. 

É como se o Estado, ao mesmo tempo em que admite a falha, tentasse reduzi-la a uma formalidade contábil — um número lançado para encerrar um processo, não para restaurar uma dignidade.

Indenizar não é apenas pagar. 

É reconhecer a extensão de uma violação, é dar peso concreto àquilo que foi abstratamente destruído: o tempo perdido, a dor acumulada, as oportunidades interrompidas, a confiança dilacerada. 

Quando o valor é irrisório, a mensagem implícita é cruel: o sofrimento cabe em cifras pequenas; a injustiça, afinal, não foi tão grave assim.

E nesse gesto aparentemente técnico, instala-se uma perversidade silenciosa. 

O Estado deixa de ser apenas autor do erro inicial e passa a ser também agente de sua banalização. 

A indenização insuficiente não repara — ela reitera. 

Não encerra o crime — prolonga-o em outra forma, mais sutil, porém igualmente ofensiva.

Talvez o mais grave não seja o valor em si, mas o que ele revela: uma régua moral distorcida, incapaz de medir o impacto real de suas próprias falhas. 

Porque quando a reparação não corresponde ao dano, o que se perpetua não é apenas a injustiça passada, mas a certeza de que ela pode — e talvez vá — se repetir.

E assim, entre números gélidos e decisões protocoladas, o que deveria ser justiça se aproxima perigosamente de um novo tipo de violação: aquela que, sob o pretexto de reparar, ensina que certos crimes são, na prática, precificáveis e toleráveis.”

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“São muito louváveis as opiniões que não precedem a arrogância de tentar deslegitimar todas as outras, sobretudo num mundo habitado por mais de oito bilhões de pessoas.

Há uma diferença muito silenciosa, mas profunda, entre sustentar uma ideia e erguê-la como única possibilidade de verdade. 

A primeira exige reflexão, experiência, escuta; a segunda, muitas vezes, apenas medo — medo de que o outro, ao existir com suas próprias convicções, revele a fragilidade das nossas. 

Talvez por isso, em tempos de tanto ruído, o que mais falta não sejam argumentos, mas humildade intelectual.

Opinar deveria ser um exercício de construção, não de aniquilação. 

Quando alguém sente a medonha necessidade de invalidar tudo ao redor para que sua visão pareça sólida, o que se revela não é força, mas o exato oposto: a ideia que só se sustenta se estiver sozinha. 

E ideias que precisam de isolamento raramente são maduras — são frágeis, ainda em defesa.

Num planeta onde cada existência carrega um conjunto irrepetível de vivências, crenças e contextos, discordar não deveria ser uma guerra, mas uma oportunidade rara de ampliar horizontes. 

Afinal, cada opinião que nos confronta traz, em alguma medida, a chance de enxergar além do limite confortável do nosso próprio pensamento.

A verdadeira maturidade intelectual talvez não esteja em convencer, mas em coexistir — em sustentar aquilo que se acredita sem a urgência de silenciar o outro. 

Porque, no fim, não é a uniformidade que enriquece o mundo, mas justamente a tensão criativa entre perspectivas diferentes.

E talvez seja esse o grande desafio do nosso tempo: aprender que ter voz não implica calar as outras, e que a solidez de uma ideia não se mede pelo número de adversários que ela derruba, mas pela serenidade com que ela permanece mesmo diante deles.”

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“Os inquilinos mentais desocuparão as cabeças alugadas ou os locadores terão que despejá-los?

Em tempos de tanta polarização, a pergunta não é apenas provocação — é diagnóstico pavoroso. 

Há ideias que não habitam, apenas ocupam. 

Não dialogam, apenas ecoam. 

Instalam-se sem pedir licença e, uma vez dentro, reorganizam tudo à sua volta para que nada as contrarie. 

Como inquilinos barulhentos, vivem de repetir discursos prontos, slogans fáceis e certezas herdadas, transformando o pensamento em um espaço alugado, sem identidade própria.

O mais inquietante é que, muitas vezes, o dono da casa sequer percebe que já não mora ali. 

Terceirizou suas convicções, abriu mão do incômodo de refletir e passou a confundir pertencimento com verdade. 

Afinal, pensar dá trabalho — exige dúvida, exige escuta, exige o desconforto de admitir que talvez não se saiba tanto quanto se imagina.

Mas toda ocupação tem um custo. 

Uma mente que não se renova torna-se rígida; uma convicção que não é questionada vira dogma; e um discurso que não admite revisão deixa de ser ponte e vira muro. 

Nesse cenário, o despejo não deveria ser violento, mas consciente. 

Não se trata de expulsar ideias diferentes, e sim de recuperar a autonomia sobre aquilo que se permite permanecer.

Talvez o verdadeiro ato de coragem, hoje, seja reassumir a própria casa. 

Fazer uma vistoria interna, abrir janelas, deixar o ar circular. 

Perguntar-se: isso que penso é realmente meu? 

Ou apenas me foi confortável adotar?

Porque, no fim, não é sobre silenciar vozes externas, mas sobre reaprender a escutar a própria. 

E isso começa quando o locador decide que sua mente não está mais para aluguel.”

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“Talvez, se tivéssemos nos interessado pela política antes da sua influencerização, não teríamos alugado nossas cabeças.

Porque, no fundo, o que se vê hoje não é exatamente o engajamento genuíno — é terceirização de consciência. 

A política, que deveria ser um exercício coletivo de responsabilidade, virou um palco de performance onde argumentos disputam espaço com slogans e convicções são moldadas por algoritmos. 

Em vez de cidadãos conscientes, formam-se plateias. 

Em vez de reflexão — pura e apaixonada repetição.

As redes sociais nos deram voz, mas também nos ofereceram um atalho muito perigoso: o conforto de pensar através de outros. 

Seguimos, curtimos e compartilhamos não necessariamente o que entendemos, mas o que nos representa superficialmente. 

E, nesse processo, passamos a defender narrativas como quem defende times — com muita paixão, mas sem nenhuma revisão.

Talvez o problema não seja termos opiniões, mas a forma como as adquirimos. 

Quando a política se transforma em conteúdo, ela precisa entreter para sobreviver. 

E o que entretém raramente é o que aprofunda. 

Assim, nuances se perdem, complexidades são simplificadas e qualquer tentativa de diálogo vira confronto.

Mas há uma possibilidade ignorada nesse cenário: utilizar as mesmas redes não para amplificar vozes alheias, mas para construir as nossas. 

Defender agendas próprias, baseadas em experiências reais, em escuta ativa, em dúvidas legítimas. 

Não agendas prontas, embaladas e distribuídas como produtos…

Recuperar o interesse pela política talvez não signifique consumir mais dela, mas se responsabilizar por ela. 

Questionar antes de compartilhar. 

Entender antes de reagir. 

Discordar sem demonizar e desumanizar. 

E, principalmente, reconhecer que pensar dá trabalho — e que terceirizar esse trabalho tem um custo alto demais.

No fim, alugar a cabeça é sempre mais fácil. 

Difícil é habitá-la.”

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“No meio polarizado, é preciso ponderar que ambos os extremos são capazes de comportamentos ardilosos em prol das agendas.

Talvez o maior engano do nosso tempo seja acreditar que a distorção da realidade pertença apenas ao lado oposto. 

Como se a manipulação fosse sempre uma ferramenta do “outro”, nunca nossa.

No entanto, quando a convicção se transforma em identidade, a verdade deixa de ser um compromisso e passa a ser um recurso — moldável, conveniente e estratégico.

Nos extremos, o objetivo raramente é compreender; é vencer. 

E, para vencer, vale simplificar o complexo, omitir o inconveniente, amplificar o medo e, sobretudo, reforçar certezas. 

Não se debate para construir pontes, mas para erguer muros mais altos. 

Cada argumento vira munição, cada dúvida é tratada como fraqueza, cada concessão como traição.

O problema não está apenas na existência de opiniões divergentes — isso é saudável —, mas na disposição de distorcer a realidade para sustentá-las. 

Quando a narrativa importa mais do que os fatos, qualquer meio parece justificável. 

E é aí que o ardil se instala: na edição seletiva da verdade, na escolha calculada do que mostrar e do que esconder.

No fim, o que se perde não é apenas o diálogo, mas a própria capacidade de reconhecer quando estamos sendo conduzidos — ou quando somos nós que estamos conduzindo os outros por caminhos tortuosos. 

Porque admitir isso exige um exercício muito raro: desconfiar não só do que vem de fora, mas também do que pode nascer ou florescer em nós.

Talvez o verdadeiro equilíbrio não esteja em escolher um lado, mas em preservar a honestidade intelectual mesmo quando ela contraria até as nossas próprias convicções. 

Afinal, em um cenário onde todos querem convencer, a integridade de pensar por conta própria se torna, paradoxalmente, um ato de profunda resistência.”

Simone de Beauvoir photo

“Stendhal, desde infância, amou as mulheres sensualmente; projetou nelas as aspirações de sua adolescência; imaginava-se de bom grado salvando de algum perigo uma bela desconhecida e conquistando-lhe o amor. Chegando a Paris, o que desejava mais ardentemente era "uma mulher encantadora; nós nos adoraremos, ela conhecerá minha alma"… Velho, escreve na poeira as iniciais das mulheres que mais amou. "Creio que foi o devaneio que preferi a tudo", confia-nos ele. E são imagens de
mulheres que lhe alimentaram os sonhos; a lembrança delas anima as paisagens. "A linha de rochedos aproximando-se de Arbois, creio, e vindo de Dôle pela estrada principal, foi para mim uma imagem sensível e evidente da alma de Métilde." A música, a pintura, a arquitetura, tudo o que amou, amou-o com uma alma de amante infeliz; quando passeia em Roma, a cada página, uma mulher aparece; nas saudades, nos desejos, nas tristezas, nas alegrias
que elas suscitaram-lhe, conheceu o gosto do próprio coração; a elas é que deseja como juizes. Freqüenta-lhes os salões, procura mostrar-se brilhante aos seus olhos, deveu-lhes suas maiores felicidades, suas penas; foram sua principal ocupação. Prefere seu amor a toda amizade e sua amizade à dos homens; mulheres inspiram seus livros, figuras de mulheres os povoam; é em grande parte para elas que escreve. "Corro o risco de ser lido em 1900 pelas almas que amo, as Mme Roland, as Mélanie Guibert…" As mulheres foram a própria subsistência de sua vida. De onde lhe veio esse privilégio? Esse terno amigo das mulheres, e precisamente porque as ama em sua verdade, não crê no mistério feminino; nenhuma essência define de uma vez por todas a mulher; a idéia de um "eterno feminino" parece-lhe pedante e ridículo. "Pedantes repetem há dois mil anos que as mulheres têm o espírito mais vivo e os homens, mais solidez; que as mulheres têm mais delicadeza nas idéias e os homens, maior capacidade de atenção. Um basbaque de Paris que passeava outrora pelos jardins de Versalhes concluía, do que via, que as árvores nascem podadas." As diferenças que se observam entre os homens e as mulheres refletem as de sua situação. Por exemplo, por que não seriam as mulheres mais romanescas do que seus amantes? "Uma mulher com seu bastidor de bordar, trabalho insípido que só ocupa as mãos, pensa no amante, enquanto este galopando no campo com seu esquadrão é preso se faz um movimento em falso." Acusam igualmente as mulheres de carecerem de bom senso. "As mulheres preferem as emoções à razão; é muito simples: como em virtude de nossos costumes vulgares elas não são encarregadas de nenhum negócio na família, a razão nunca lhes ê útil… Encarregai vossa mulher de tratar de vossos interesses com os arrendatários de duas de vossas propriedades; aposto que as contas serão mais bem feitas do que por vós." Se a História revela-nos tão pequeno número de gênios femininos é porque a sociedade as priva de quaisquer meios de expressão: "Todos os gênios que nascem mulheres estão perdidos para a felicidade do público; desde que o acaso lhes dê os meios de se revelarem, vós as vereís desenvolver os mais difíceis talentos." O pior handicap que devem suportar é a educação com que as embrutecem; o opressor esforça-se sempre por diminuir os que oprime; é propositadamente que o homem recusa às mulheres quaisquer possibilidades. "Deixemos ociosas nelas as qualidades mais brilhantes e mais ricas de felicidade para elas mesmas e para nós." Aos dez anos, a menina é mais fina e viva do que seu irmão; com vinte, o moleque é homem de espírito e a moça "uma grande idiota desajeitada, tímida e com medo de urna aranha"; o erro está na formação que teve. Fora necessário dar à mulher exatamente a mesma instrução que se dá aos rapazes.”

The Second Sex

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“Talvez um dos fenômenos globais mais proeminentes — e perigosos — da atualidade seja a reinvenção da velha arte de dividir. 

A polarização se atualizou, ganhou verniz tecnológico, novas linguagens e plataformas, só para redescobrir, com atraso, mais do que trágico, o preço da humanidade.

E a lógica do “nós contra eles” nunca foi gratuita. 

Para que ela se sustente, é preciso mais do que slogans e inimigos fabricados: exige mentes disponíveis.

Algumas são alugadas por conveniência, outras vendidas por desespero, ambição ou fé cega. 

No mercado das manipulações, o contrato é raramente lido, mas quase sempre cobrado.

O aluguel se paga com verdades fabricadas, recortadas e maquiadas até parecerem legítimas. 

A compra, essa, exige a medonha moeda corrente: poder, visibilidade, likes, pertencimento, proteção, cargos ou silêncio cúmplice. 

E quanto mais cara a consciência, mais sofisticada a narrativa que a embala.

Não é tão difícil sequestrar uma mente humana. 

Basta oferecer uma certeza confortável, um culpado conveniente e a ilusão de pertencimento. 

Difícil mesmo — quase impossível — é alugar a cabeça da maioria de um povo sem antes comprar algumas. 

São essas poucas cabeças vendidas que legitimam o coro, afinam o discurso e tornam a manipulação socialmente aceitável.

Os inquilinos da manipulação certamente não movimentam somente as moedas simbólicas. 

Narrativas também têm lastro. 

Quando a mentira se sustenta por tempo demais, alguém está financiando sua permanência — seja com dinheiro, seja com influência, seja com o sacrifício deliberado da verdade.

E, no fim, quando tudo parece ruído, polarização e caos espontâneo, resta a constatação mais incômoda: não se trata somente de mentes enganadas. 

Trata-se de consciências negociadas.

Porque enquanto alguns alugam suas cabeças por ignorância transitória, outros as vendem com escritura registrada.

E alguém — invariavelmente — está se vendendo.

Há, porém, uma dobra ainda muito mais sutil nesse tecido: muitas verdades fabricadas deixam de ser só mentiras bem contadas para se tornarem verdades funcionais, dependendo de quem as defenda.

Não é o fato que as sustenta, mas o lugar de onde são proclamadas.

Quando a narrativa vem amparada por carisma, poder, fé ou pertencimento, ela dispensa provas. 

A autoridade simbólica substitui a realidade, e a repetição apaixonada ocupa o espaço onde antes morava a dúvida. 

A mentira, então, não precisa convencer — basta circular.

Mas o mundo apaixonado não percebe isso porque a paixão suspende o pensamento crítico. 

Troca-se a pergunta pelo aplauso, a escuta pela defesa, a busca da verdade pela necessidade de vencer.

A verdade deixa de ser algo a ser descoberto para ser algo sob proteção — mesmo quando é frágil, contraditória ou vazia.

Há conforto nessa entrega. 

Pensar exige risco. 

E pode custar o grupo, a identidade, o rótulo, o abrigo emocional. 

A paixão, ao contrário, oferece chão firme, ainda que falso, e a tranquilidade de não precisar rever nada.

Por isso, verdades fabricadas prosperam melhor em tempos de devoção do que em tempos de reflexão. 

Elas não exigem coerência, exigem lealdade. 

Não mendigam compreensão, mas repetição.

E talvez o mais perturbador não seja que muitos não percebam esse mecanismo — mas que alguns percebam… e ainda assim, escolham permanecer apaixonados, defendendo com fervor aquilo que jamais ousaram examinar.

A polarização é trevosa!”

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“Há que se ponderar que ninguém é Odiado nem Amado por todos, como se tenta sustentar a Opinião Pública.

A opinião pública, quase sempre, é vendida como se fosse uma entidade sólida, homogênea, unânime — uma espécie de tribunal invisível que já teria chegado ao seu veredito final sobre pessoas, ideias e acontecimentos. 

Mas basta um olhar menos apressado para perceber que essa suposta unanimidade costuma ser muito mais barulhenta do que verdadeira. 

O que se chama de “todos” raramente é todos; na maior parte das vezes, é apenas o recorte mais estridente de uma parcela que conseguiu transformar sua voz em aparência de consenso.

Nenhum ser humano é simples o bastante para ser amado por todos, nem desprezível o bastante para ser odiado por todos. 

A própria complexidade das relações humanas desautoriza esse tipo absurdo de sentença absoluta. 

Quem hoje é exaltado por muitos, inevitavelmente será incompreendido, criticado ou rejeitado por outros. 

E quem hoje é alvo de repulsa coletiva, ainda assim encontrará, em algum canto, quem enxergue nuances, contradições, contextos ou mesmo humanidade onde a multidão só quis despejar rótulos.

O problema é que a opinião pública contemporânea não se contenta com a discordância; ela tem fome de totalidade. 

Ela não quer dizer que alguém é controverso, quer decretar que alguém é unanimemente admirável ou integralmente detestável. 

Porque os extremos são mais fáceis de consumir. 

Eles dispensam reflexão, economizam complexidade e oferecem ao público a ilusão confortável de pertencer ao lado certo da história sem o incômodo de pensar demais.

Só que a realidade não se curva tão facilmente à teatralidade dos julgamentos coletivos. 

As pessoas carregam Grandezas e Misérias ao mesmo tempo. 

Podem ser sinceramente admiradas por algumas virtudes e legitimamente criticadas por falhas graves. 

Podem despertar amor em certos corações e repulsa em outros, sem que isso constitua contradição alguma. 

Contraditório, na verdade, é imaginar que a experiência humana possa ser reduzida a uma votação emocional universal.

Talvez uma das maiores fraudes do nosso tempo seja justamente essa fabricação de unanimidades artificiais. 

Não para revelar o que as pessoas de fato pensam, mas para constranger quem pensa diferente. 

Quando se repete que “todos amam” ou “todos odeiam”, o que se tenta impor não é uma constatação, mas uma pressão. 

É a tentativa de transformar percepção em obediência, sentimento em manada, juízo em reflexo condicionado.

Pensar com honestidade exige romper esse feitiço medonho.

Exige entender que a aclamação coletiva pode ser só euforia passageira, assim como a rejeição coletiva pode ser apenas a febre moral de um tempo doente por certezas fáceis. 

Exige, sobretudo, maturidade para reconhecer que a humanidade não cabe nessas molduras brutais de amor ou ódio absoluto.

No fundo, talvez o que mais distorce a opinião pública não seja a existência de divergências, mas o esforço constante para apagá-las em nome de narrativas convenientes. 

E é justamente aí que mora o perigo: quando a pluralidade real dos afetos humanos é sacrificada para sustentar a ficção de que todos sentem o mesmo. 

Porque sempre que tentam nos convencer de que alguém é amado ou odiado por todos, talvez estejam menos descrevendo o mundo e mais tentando domesticá-lo.”

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“São muito numerosos os nobres que vivem ociosamente como verdadeiros zangões; eles vivem do suor dos outros e esfolam e sugam o sangue dos vassalos que vivem em suas terras.”

Utopia, Página 14 http://books.google.com.br/books?ei=KPRbVLHuA7HCsASc4oD4Aw&hl=pt-BR&id=GvxHAAAAYAAJ&dq=utopia+zang%C3%B5es&focus=searchwithinvolume&q=zang%C3%B5es, Sir Thomas More (Saint) - Prefácio: João Almino; Tradução: Anah de Melo Franco - IPRI, 2004 - 167 páginas.
"Tantus est ergo nobilium numerus, qui non ipsi modo degant ociosi tanquam fuci laboribus aliorum, quos puta suorum praediorum colonos augendis reditibus ad uiuum usque radunt."
De Optimo Reipublicae Statu, Deque nova insula Utopia. Página 36 https://la.wikisource.org/wiki/Pagina:Utopia,_More,_1518.djvu/37, Thomas More - Froben, 1518 - 190 páginas.
Utopia (1516)

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“Maldito seja Copérnico!”

Luigi Pirandello (1867–1936) dramaturgo, poeta e romancista siciliano

Oh, oh, oh, o que Copérnico tem a ver com isso? - exclama padre Eligio.
Tem sim, padre Eligio. Porque quando a Terra não girava...
Mas ela sempre girou!
Não é verdade! O homem não sabia disso e, por conseguinte, era como se não girasse. Para muitos, ela continua a não girar também agora. Eu falei que girava, outro dia, a um velho camponês; sabe o que ele me respondeu? "Que era uma boa desculpa para os bêbados."
O Falecido Mattia Pascal

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“Os homens não amam aqueles que os fazem lembrar de seus pecados.”

Frederick Douglas (1818–1895) Ativista dos direitos humanos estadunidense

Explicando porque os pais de filhos com escravas não lhes tinham o amor devido.
Original: Men do not love those who remind them of their sins.
Fonte: Quote of the day: Frederick Douglass on Biracial Children, Frederick Douglass, 31 de dezembro de 2013, The Root, 15/1/2017 http://www.theroot.com/articles/history/2013/12/best_black_history_quotes_frederick_douglass_on_biracial_children/,

“Elogiado e Corrigido

Você perseverou e tem paciência. . . . No entanto, tenho isso contra você. -
Escritura de hoje : Apocalipse 2: 1-7

Imagine Danny, de 8 anos, chegando a bater três vezes em um jogo da Little League. Ele ataca duas vezes e escolhe uma vez. Após o jogo, um famoso jogador da liga principal se aproxima dele. “Danny”, ele diz, “gostei do jeito que você bateu naquele single e apressou-se para primeiro. Você vai ser um bom jogador de bola algum dia. ”

Danny irradia. Ele é receptivo e ansioso para melhorar. Então ele é todo ouvidos quando o profissional acrescenta: “Mas Danny, você tende a superar a bola. Você tem que mudar sua postura e o jeito que você segura o bastão. Deixe-me dar algumas dicas. ”O conselho é atendido porque combina elogios com correção.

Muitas pessoas vêem Deus como um severo disciplinador que emite advertências e ameaças sem elogios. Mas essa não é a imagem que temos na leitura bíblica de hoje. A igreja de Éfeso havia abandonado seu primeiro amor (Apoc. 2: 4) e precisava renovar o brilho cálido que já teve ou deixaria de existir (v.5). Jesus deu aos Efésios uma severa advertência, mas ao chamá-los a se arrependerem, Ele também reconheceu tudo o que era bom na igreja (vv.2-3,6).

É assim que Deus nos motiva. Ele afirma nossa fidelidade a Cristo e nos lembra do que podemos nos tornar. Mas Ele também aponta onde ficamos aquém. Podemos ser gratos que Deus não apenas nos corrige, mas também nos recomenda.

Refletir e Orar
Para Estudo Adicional
Leia Apocalipse 2 e 3. Sete vezes Jesus disse:
“Eu conheço as tuas obras.” Por que Ele recomendou as
sete igrejas? Pois o que Ele corrigiu?

O elogio de Deus nos encoraja; A correção de Deus nos dá esperança. Dennis J. DeHaan”

“Pressionado perto de Deus

Embora Ele me mate, ainda assim eu confiarei Nele. - Escritura de hoje : Jó 13: 13-28

As videiras que às vezes crescem ao lado dos carvalhos se agarram a elas durante as tempestades mais violentas. Embora o vento os derrube, os tentáculos seguram firmemente a casca da árvore. Se a videira está do lado oposto ao vento, o grande carvalho é sua proteção; se estiver no lado exposto, o vento pressiona a videira mais de perto.

Como cristãos, às vezes somos protegidos por Deus, enquanto outras vezes Ele nos permite sermos expostos para que possamos ser pressionados mais de perto para ele. Depois de anos de fidelidade, alguns cristãos de repente se encontram muito testados e em profundo sofrimento - aparentemente sem razão. Eles estão sujeitos a terríveis batalhas com dúvidas, medos e incredulidade. Deus não se importa com o quanto eles sofrem? Claro que ele faz. Mas Ele tem um propósito especial em reter alívio imediato.

Quando Deus falou a Satanás sobre Jó, ele o descreveu como “íntegro e reto”, aquele que “agarra com firmeza à sua integridade” (Jó 1: 8; 2: 3). Deus sabia que podia confiar em que Jó se apegasse a Ele, não importava o que acontecesse. A fé perseverante de Jó no meio de provações esmagadoras iria refutar o argumento de Satanás de que ele servia a Deus somente porque Deus o abençoou.

O Senhor pode ter um propósito semelhante em seu julgamento. Lembre-se do exemplo de Job. Segure-se a Deus.

Refletir e Orar
Embora as provações surjam, embora os medos assaltem,
Por meio de testes pouco compreendidos,
Uma verdade brilha clara - não pode falhar -
Meu Deus é certo e bom. —Hager

Nossas aflições são destinadas a não nos destruir, mas a nos inclinar para Deus. Henry G. Bosch”

Bertolt Brecht photo

“Sente-se.
Está sentado?
Encoste-se tranquilamente na cadeira.
Deve sentir-se bem instalado e descontraído.
Pode fumar.
É importante que me escute com muita atenção.
Ouve-me bem?
Tenho algo a dizer-lhe que vai interessá-lo.

Você é um idiota.

Está realmente a escutar-me?

Não há pois dúvida alguma de que me ouve com clareza e distinção?
Então repito: você é um idiota. Um idiota.
I como Isabel;
D como Dinis;
outro I como Irene;
O como Orlando;
T como Teodoro;
A como Ana.
Idiota.

Por favor não me interrompa.
Não deve interromper-me.
Você é um idiota.
Não diga nada.
Não venha com evasivas.
Você é um idiota.
Ponto final.

Aliás não sou o único a dizê-lo.
A senhora sua mãe já o diz há muito tempo.
Você é um idiota.
Pergunte pois aos seus parentes.
Se você não é um idiota…
claro, a você não lho dirão, porque você se tornaria vingativo como todos os idiotas.
Mas os que o rodeiam já há muitos dias e anos sabem que você é um idiota.
É típico que você o negue.
Isso mesmo: é típico que o Idiota negue que o é.
Oh, como se torna difícil convencer um idiota de que é um Idiota.
É francamente fatigante.
Como vê, preciso de dizer mais uma vez que você é um Idiota e no entanto não é desinteressante para você saber o que você é e no entanto é uma desvantagem para você não saber o que toda a gente sabe.
Ah sim, acha você que tem exactamente as mesmas ideias do seu parceiro.
Mas também ele é um idiota.
Faça favor, não se console a dizer que há outros Idiotas: Você é um Idiota.
De resto isso não é grave.
É assim que você consegue chegar aos 80 anos.
Em matéria de negócios é mesmo uma vantagem.
E então na política!
Não há dinheiro que o pague.
Na qualidade de Idiota você não precisa de se preocupar com mais nada.
E você é Idiota

(Formidável, não acha?)”

Bertolt Brecht (1898–1956)
Aldous Huxley photo

“A nossa sociedade ocidental contemporânea, apesar do seu progresso material, intelectual e político, promove cada vez menos a saúde mental e contribui para minar a segurança interior, a felicidade, a razão e a capacidade de amar do indivíduo; tende a transformá-lo num autómato que paga o seu fracasso humano com o aumento das doenças mentais e com o desespero oculto sob um frenesim de trabalho e de pretenso prazer.

Este aumento das doenças mentais pode ter expressão em sintomas neuróticos, claramente visíveis e extremamente penosos. Mas abstenhamo-nos, como diz Fromm, de definir a higiene mental como a prevenção de sintomas. Estes não são nossos inimigos, mas, sim, nossos amigos; quando há sintomas, há conflito, e o conflito indica sempre que as forças da vida que pugnam pela integração e pela felicidade continuam a lutar. Os casos de doença mental realmente desesperados encontram-se entre os indivíduos que parecem mais normais. Muito deles são normais por se encontrarem tão bem adaptados ao nosso modo de vida, porque a sua voz humana foi silenciada tão precocemente nas suas vidas que nem sequer lutam ou sofrem ou desenvolvem sintomas como o neurótico.
Não são normais no sentido absoluto que poderíamos dar à palavra; são normais apenas em relação a uma sociedade profundamente anormal. A sua adaptação perfeita a essa sociedade anormal é uma medida da sua doença mental. Estes milhões de indivíduos anormalmente normais, que vivem sem espalhafato numa sociedade à qual, se fossem seres humanos por inteiro, não deviam estar adaptados, acalentam ainda a ilusão da individualidade, mas, na realidade, estão em grande medida desindividualizados. A sua conformidade evolui para uma coisa parecida com a uniformidade. mas uniformidade e liberdade são incompatíveis. A uniformidade e a saúde mental são também incompatíveis. […] O homem não é feito para ser um autómato, e, se nisso se tornar, a base do seu equilíbrio mental está destruída.”

Brave New World Revisited

Gerson De Rodrigues photo

“Poema – Vozes e Goétia

‘’ Se todos os meus pensamentos
Fossem revelados ao mundo

Pedófilos, estupradores, e ditadores
Seriam considerados santos
Diante da minha miséria

Ah em mim tanta podridão
Que as lágrimas que escorrem
Dos meus olhos causam náusea aos Deuses’’

- Não ouviram falar do homem louco?
Que arrancou os seus tímpanos com as unhas

E com eles nas mãos em plena manhã
Lançou-se em meio à multidão gritando

– Não estão escutando estes sussurros?
- As janelas batendo ao vento?
- Andem matem uns aos outros e enforquem-se até que
A sua alma pare de gritar!

E lá,
Em meio à praça publica
Enquanto gritava como um lunático

Encontrou homens e mulheres
Prontos para julga-lo

Haviam aqueles que zombavam das suas roupas
Porque eram velhas e surradas

Outros gargalhavam sobre a cor da sua pele
E também haviam aqueles que zombavam do seu cabelo

E como se não bastassem!
Jogavam no homem louco
Frutas podres, pedras e pedaços de pau

Enquanto zombavam também
Da sua sexualidade

O homem louco perdido em meio a multidão
Chorava e gritava para que aqueles que o cercavam
Pudessem ajuda-lo a cessar as vozes na sua cabeça.

- E o que aconteceu com o homem louco?
Deves estar se perguntando!

Naquela mesma noite
Refugiou-se em meio as colinas
Trancafiou-se no mais terrível abismo
E nunca mais foi visto

Mas dizem as lendas
Rogadas por Padres, Poetas e Filósofos

Que o homem louco
Arrancou os seus próprios olhos com uma colher
Para que nunca mais pudesse se olhar no espelho

Então ele ateou fogo em seu cabelo
Para que nunca mais pudessem zombar dele

Dilacerou até mesmo suas genitálias
E rasgou sua pele com as unhas
Para que nenhuma alma
Possa julga-lo novamente

Dizem que até hoje
Ele se arrasta com os seus tímpanos nas mãos
Atrás de almas perdidas como a sua
Implorando para que cessem as vozes na sua mente

Mas as vozes nunca cessaram
Elas sempre estiveram lá

Como uma assombração
Perseguindo-o por todos os cantos

Tal como as vozes
Na sua cabeça…
- Gerson De Rodrigues”

Gerson De Rodrigues (1995) poeta, escritor e anarquista Brasileiro

Fonte: Filosofia Niilista

Esta frase aguardando revisão.

“⁠A psicóloga está acabando comigo:
mandou-me separar um caderno só para anotar as incidências de estresse…


Só estou fazendo para comprar caderno!


Parece brincadeira — e é também!


Mas, olhando mais de perto, percebe-se algo muito maior escondido nesse riso: quantas vezes tratamos o cuidado emocional como se fosse só mais um caderno novo na gaveta?


É a recusa disfarçada, o medo sutil de se conhecer,
de se colocar diante do espelho,
de admitir que dentro de nós também existem gavetas bagunçadas
que carecem de arrumação.


Escrever, no fundo, é isso:
um ato simples que revela abismos
e, ao mesmo tempo, constrói pontes sobre eles.


Pela palavra, evitamos novas feridas
e aliviamos as que insistem em se abrir.


Há textos que caminham sozinhos.


Nascem prontos, enxutos, inteiros.


Mas há outros que precisam calçar as sandálias da empatia
para não machucar ou confundir quem ainda anda descalço dentro da própria alma.


E, é nesse vai-e-vem entre provocar e acolher
que percebemos algo curioso:
quando aprendemos a brincar com as palavras e com as imagens,
elas se juntam para brincar conosco.


A escrita deixa de ser esforço
e passa a ser companhia.


A arte deixa de ser fuga
e vira travessia.


É aí que o caderno muda de função.


De simples objeto, ele se transforma em lugar:
um lugar onde a dor descansa,
onde a graça do cotidiano floresce,
onde a alma encontra espaço para respirar.


E se eu tenho um desejo para quem se senta para folhear conosco esse “nosso caderno”,
é que saia daqui um pouco melhor do que entrou.


Porque a palavra bem cuidada faz isso —
acolhe, reorganiza, ilumina.


E quando compartilhada com sinceridade,
cura quem escreve e quem lê.


No fim, terapia ou não,
a escrita é um jeito silencioso de cuidar do mundo.


E, quem sabe, de nós mesmos também.”

Esta frase aguardando revisão.

“Os que sacrificam demais o presente para viver o futuro, chegam nele com saudade da saúde que não aproveitaram no passado.

Quem negligencia o presente para viver o futuro costuma acreditar que está fazendo um investimento muito seguro. 

Troca horas de sono por promessas, adia encontros por metas, empurra o cuidado com o corpo para depois da próxima conquista. 

Vivem como se a vida fosse um rascunho — como se o agora fosse apenas um corredor apertado que precisa ser atravessado às pressas para, enfim, chegar ao grande salão do “um dia”.

Mas o futuro tem um hábito curioso: ele chega. 

E quando chega, não traz de volta as madrugadas mal dormidas, as refeições engolidas às pressas, os abraços adiados, os sinais ignorados do próprio corpo. 

Ele chega cobrando juros silenciosos — nas dores crônicas, no cansaço que não passa, na energia que já não acompanha os sonhos.

Há uma ironia delicada nisso tudo: trabalhamos para garantir dias melhores e, no processo, entregamos os dias que já eram bons. 

Buscamos segurança e acumulamos ausência. 

Queremos estabilidade e perdemos vitalidade. 

E quando finalmente alcançamos o futuro tão esperado, às vezes ele nos encontra com a saúde fragilizada, e uma saudade imensa do tempo em que podíamos ter vivido com mais equilíbrio.

O presente não é inimigo do futuro. 

Ele é a matéria-prima dele. 

É no agora que o corpo se fortalece ou se desgasta, que a mente respira ou se sobrecarrega, que a alma floresce ou se cala. 

Não há amanhã saudável construído sobre um hoje negligenciado.

Talvez a sabedoria não seja abandonar os planos, mas aprender a não se abandonar enquanto os constrói. 

Porque sucesso algum compensa o arrependimento de ter tratado a própria saúde como algo descartável. 

E não há futuro tão próspero que substitua o privilégio de estar inteiro — física, mental e espiritualmente — na única linha do tempo que realmente nos pertence: o agora.

O melhor dia para se viver é hoje.”