“Fiz a descida toda no escuro. Agora via-se a Lua entre nuvens ralas de rebordos claros e a noite estava perfumada, ouvia-se o ruído hipnótico das ondas. Já na praia tirei os sapatos, a areia era fria, uma luz azul-cinza alongava-se até ao mar e depois espalhava-se pela extensão trémula da água. Pensei: sim, a Lila tem razão, a beleza das coisas é uma caracterização, o céu é o trono do medo; estou viva, neste momento, aqui a dez passos da água e na verdade isso não é belo, é aterrador; faço parte, juntamente com esta praia, com o mar, com o fervilhar de todas as formas animais, do terror universal; neste momento sou a partícula infinitesimal através da qual o terror de cada coisa toma consciência de si; eu; eu que oiço o ruído do mar, que sinto a humidade e a areia fria; eu que imagino Ischia inteira, os corpos abraçados de Nino e Lila, Stefano a dormir sozinho na casa nova cada vez menos nova, as Fúrias a favorecerem a felicidade de hoje para alimentarem a violência de amanhã. Sim, é verdade, tenho muito medo e por isso desejo que tudo acabe depressa, que as imagens dos pesadelos me comam a alma. Desejo que desta obscuridade saiam bandos de cães raivosos, víboras, escorpiões, enormes serpentes marinhas. Desejo que enquanto estou aqui sentada, à beira do mar, surjam da noite assassinos que me martirizem o corpo. Oh, sim, que eu seja castigada pela minha inadaptação, que me aconteça o pior, algo tão devastador que me impeça de fazer frente a esta noite, ao dia de amanhã, às horas e aos dias que me confirmarão, com provas cada vez mais esmagadoras, a minha constituição inadequada.”Elena Ferrante
“De qualquer modo, o tempo das fidelidades e das vidas em comum sólidas acabara, tanto para homens como para as mulheres. Mas então, porque olhávamos para o pobre Gennaro, por alcunha Rino, como uma ameaça? Dede viveria a sua paixão, esgotá-la-ia, seguia o seu caminho. Entretanto provavelmente voltaria a vê-lo, trocariam algumas palavras afectuosas. O ritmo era esse, porque queria uma coisa diferente para a minha filha?”Elena Ferrante The Story of the Lost Child
“Enquanto em Pisa ou Milão eu me sentia bem, às vezes até feliz, em minha cidade natal temia a cada retorno que algum imprevisto me impedisse de fugir dali, que as coisas que eu tinha conquistado fossem tiradas de mim.”Elena Ferrante Those Who Leave and Those Who Stay
“Disse que vivíamos num país provincianíssimo, onde toda ocasião era boa para se lamentar, mas enquanto isso ninguém arregaçava as mangas e reorganizava as coisas tentando fazê-las funcionar.”Elena Ferrante livro The Story of a New NameThe Story of a New Name
“Fiz muitas coisas em minha vida, mas jamais convicta, sempre me senti um tanto descolada de minhas próprias ações.”Elena Ferrante livro My Brilliant FriendMy Brilliant Friend
“Você entende, Lenu, o que acontece com as pessoas: a gente tem coisa demais por dentro, e isso nos incha, nos arrebenta.”Elena Ferrante Those Who Leave and Those Who Stay