“Sonho OrientalSonho-me ás vezes rei, n'alguma ilha,Muito longe, nos mares do Oriente,Onde a noite é balsamica e fulgenteE a lua cheia sobre as aguas brilha…O aroma da magnolia e da baunilhaPaira no ar diaphano e dormente…Lambe a orla dos bosques, vagamente,O mar com finas ondas de escumilha…E emquanto eu na varanda de marfimMe encosto, absorto n'um scismar sem fim,Tu, meu amor, divagas ao luar,Do profundo jardim pelas clareiras,Ou descanças debaixo das palmeiras,Tendo aos pés um leão familiar.”Antero de Quental
“Quos Deus perdere vult prius dementat.Que os meus quase patrícios de Portugal se não aterrem. Todas estas coisas anárquicas estão a cinquenta e cem léguas das nossas terras patriarcais e a mil ou duas mil das nossas não menos patriarcais inteligências. Sobre outros tectos, sobre outras searas pairam as nuvens minacíssimas da próxima tormenta! A terra emudece, o ar solta suspiros misteriosos com o pressentimento da tempestade que se avizinha! Mas sob os nossos tectos reina o contentamento dos simples; e, se as nossas searas nos não recusam o pão quotidiano dos crentes, que nos fazem as nós revoluções, democracias, progresso e leis da história?”Antero de Quental livro Odes ModernasOdes Modernas
“MãeMãe - que adormente este viver dorido,E me vele esta noite de tal frio,E com as mãos piedosas até o fioDo meu pobre existir, meio partido…Que me leve consigo, adormecido,Ao passar pelo sítio mais sombrio…Me banhe e lave a alma lá no rioDa clara luz do seu olhar querido…Eu dava o meu orgulho de homem - davaMinha estéril ciência, sem receio,E em débil criancinha me tornava,Descuidada, feliz, dócil também,Se eu pudesse dormir sobre o teu seio,Se tu fosses, querida, a minha mãe!”Antero de Quental
“ContemplaçãoSonho de olhos abertos, caminhandoNão entre as formas já e as aparências,Mas vendo a face imóvel das essências,Entre ideias e espíritos pairando…Que é o Mundo ante mim? fumo ondeando,Visões sem ser, fragmentos de existências…Uma névoa de enganos e impotênciasSobre vácuo insondável rastejando…E dentre a névoa e a sombra universaisSó me chega um murmúrio, feito de ais…É a queixa, o profundíssimo gemidoDas coisas, que procuram cegamenteNa sua noite e dolorosamenteOutra luz, outro fim só pressentindo…”Antero de Quental