„Para os ossos de meu pai que já não significam nada.

Meu quinto copo
de café
mais uma vez estava
vazio,
mas a quatro metros
da cadeira
em que eu permanecia
sentado,
seu caixão não
estava.
E por entre os tragos de meu cigarro
e o pranto de minha
mãe
eu podia ver a ponta
do seu nariz entupido
com algodão
e formou que continuava
colado com o
resto de toda sua
carne.
Você estava
ali
na minha frente
embalado por aquela
grande caixa de
madeira,
pronto para ser descartado,
pois todos nós
já sabíamos que
sua carcaça estava
apodrecendo
e que teu cheiro dali
para frente se tornaria
apenas
um incômodo.
E pela primeira vez em toda minha vida,
eu presenciei de perto
o horror de algo que você
já não mais poderia
sentir.
A sua partida acendeu
algo dentro
de mim,
e enquanto tuas sobras
eram ocultadas por aqueles montes de
terra,
eu sentia que essa coisa
me incinerava
de dentro para
fora.
Queimei como nunca
antes,
e eram chamas frias,
assim como as sobras
de teu sangue
que já não tinham mais um coração para
bombear.
E aquela foi a última vez
que te vi,
e eu parti ciente de
que jamais poderia
te ver de
novo,
apesar desse teu
rosto magro
e pálido
ter sido petrificado
até o ínfimo de minhas
mais amargas
lembranças.“

—  Charlie Barkley

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